Danças Sagradas

Memória, música, movimento, sentimento, celebração, tudo isto traduzido em dança coletiva, em roda...Mistura de brincadeira e de oração, as danças cirulares fascinam os seres humanos há milhares de anos. E hoje, fazem parte de um arsenal de ferramentas para fazer você viver melhor

Este foi o grande achado do bailarino e coreógrafo alemão Bernard Wosien em sua pesquisa sobre o folclore de vários países europeus. Transbordando este repertório e impulsionado por sua paixão pela dança, em 1976, Wosien decidiu apresentar o resultado de suas investigações a Fundação Findhorn, na Escócia, onde um grupo de pessoas vivia em comunidade sob novos conceitos espirituais.  

O resultado deste encontro logo se concretizou em passos, gestos e coreografias... Diante das informaçóes sobre as danças dos antepassados, o pesquisador decidiu trabalhá-las de um modo novo com aquele grupo da Findhorn. O objetivo era resgatar por meio daquelas danças folclóricas seus valores primordiais, isto é, o sentido de comunidade, de olhar para o outro e para dentro de si mesmo. Nasciam ali as chamadas Danças Circulares Sagradas, ou melhor, renasciam. Ontem, dançar era celebrar os antigos de todas as origens (indígena, africana, européia) celebravam com danças a passagem das estações do ano, as colheitas, nascimentos, casamentos, mortes, enfim, tudo o que consideravam importante em suas vidas. “O movimento era a forma do corpo aprender a história dos antepassados e incorporar sua sabedoria”, escreve Marcus Ivan Santana Sampaio, no livro Danças Circulares Sagradas (Editora Triom – de onde retiramos a maioria dos depoimentos apresentados aqui).  

Neste aprendizado, segundo ele, o movimento simbolizava o fluir da vida, enquanto hoje os movimentos se apresentam de forma automatizada e desordenada, refletindo as características de nossa sociedade.De acordo com a psicóloga junguiana, Lucia Helena Hebling Almeida, estas danças são consideradas sagradas por ter origem dentro de comunidades que pautavam a vida pelos valores do sagrado. “As tradições sagradas (como as danças) assinalam a necessidade do homem de tentar compreender o divino e sua dependência de um poder transcendente.

  A tentativa de estabelecer esse contato se dava através dos rituais”, destaca Lucia Helena. Não à toa que estas manifestações são sempre carregadas de muito simbolismo. A consciência diferencia o homem dos outros animais e é por causa dela que nós temos a capacidade de simbolizar. Os rituais das diversas tradições sagradas são sempre representações simbólicas criadas para estabelecer contato com o divino e o simbolismo é considerado como representação desta energia. Como explica Renata Carvalho Lima Ramos, fundadora da TRIOM, Centro de Estudos, Livraria e Editora, na Dança Circular Sagrada que é vivenciada hoje, o sagrado não está relacionado a nenhuma religião, mas apenas ao sentido original da palavra religião: 'religare' o ser humano ao transcendente, que, segundo ela, está dentro de cada um de nós.

Símbolos de sempre são inúmeros os símbolos presentes nas Danças Circulares Sagradas. O mais evidente deles é o círculo. 

 

A terapeuta, Ana Lucia Borges da Costa, que tambêm escreve no livro Danças Circulares Sagradas, acentua que o círculo é um dos símbolos mais poderosos e uma das grandes imagens primordiais da humanidade, pois representa a totalidade, completa no tempo e no espaço. Em termos de espaço, tudo dentro do círculo é uma coisa só, circundada e limitada. Já em seu aspecto temporal, o círculo refere-se ao fato de que sempre partimos de algum lugar e de algum modo retornamos a ele, como interpreta o estudioso Joseph Campbell.

O centro do círculo simboliza a fonte ou Deus e o círculo formado pelas pessoas na roda da Dança Circular significa a vida. Para fora deste círculo está o resto do mundo. “Podemos dizer que transitamos em volta do Centro e que dele extraímos forças para viver. 

 

No círculo, na roda da vida, nos posicionamos de maneira passiva ou ativa e temos uma postura, mas, ao mesmo tempo, nos movimentamos respeitando uma ordem grupal. Nossos encontros e desencontros na vida são simbolizados na roda pelas danças de pares”, argumenta Renata Carvalho. C. G Jung refere-se ao círculo como símbolo do “si mesmo” ou “self”, a totalidade da personalidade.  

Segundo ele, a meta do desenvolvimento psíquico é o “si mesmo”, e a aproximação em direção a ela não é linear, mas circular. Apresentado desta forma, o círculo simboliza também a realização da idéia geral de um indivíduo singular, sendo expressão de um caminho que conduz ao centro. Em uma estrutura circular, todos os pontos giram em torno de um centro e estão á mesma distância dele. Assim, esse símbolo representa a igualdade e a unidade. Da mesma forma, dançar em círculo nivela todos os indivíduos. Na roda não há hierarquia e as pessoas se olham nos olhos reconhecendo-se como unidades importantes neste “desenho”.

  “O formato circular de algumas danças resgata também este simbolismo, pois, assim como o círculo, representa o Todo, cada ponto dentro do círculo representa a individualidade, a identidade de cada participante”, aponta Marcus Ivan Santana Sampaio, licenciado em Educação Física, mais um dos autores do livro organizado por Renata. Ainda dentro do que é circular existe o símbolo do ponto: a unidade, a perfeição, portanto, um símbolo de Deus. Segundo o matemático Paulo Murakata, juntos, o centro e o círculo simbolizam, respectivamente, Deus e o mundo, a unidade e o múltiplo, o invisível e o visível.Espiral Um dos movimentos feitos na Dança Circular tem a forma espiral.

As voltas do círculo simbolizam a mutação. Sendo que cada tradição tem um modo peculiar de girar. “As vezes, numa dança, a roda vai só para um lado, as vezes segue para um outro, e volta. De maneira geral, o movimento simboliza o movimento do tempo, que nos dá a sensação de passado, presente e futuro, mas que, no fundo, é um “continuum” inseparável”, explica Luiz Eduardo Valiengo Berni, que é musicista, educador, psicoterapeuta.

O movimento em espiral (dança do tipo “labirinto”) lembra ainda que o movimento não é apenas cíclico, mas também evolutivo, como uma espiral tridimensional. A espiral é símbolo da evoluçatilde;o do universo, das forças de criação e destruiçáo, que faz com que eliminemos o velho para construirmos o novo.Posição das mãos A forma como as mãos se unem também tem um simbolismo próprio e reforça a integração entre as pessoas.

Com uma palma para cima e outra para baixo, que simboliza o ato de dar e de receber encontra-se o equilíbrio, pois nos damos ao outro e recebemos dele, porque todos fazem parte de um mesmo conjunto. Luiz Eduardo ensina: “No círculo, as mãos devem ser dadas na mesma ordem, de modo que uma mão fique voltada para cima e outra para baixo (...) Isso garante que a energia circule sempre no mesmo sentido”.Braços e corpo Durante a dança os braços unidos dos dançarinos podem criar runas, que são conjuntos de símbolos

arquetípicos muito simples, usados pelos povos primitivos da Europa. A posição mais simples, que consiste nos braços soltos e as mãos dadas evoca a runa ehwas, que significa progresso e renovação.

. Quando os braços e as mãos são erguidos para o alto temos uruz, que representa força e desejo de mudança. A runa ehwas invertida é formada ao trazermos as mãos a altura dos ombros. Esta runa nos adverte para que tomemos consciência dos nossos atos e responsabilidades. Dagaz, a trama de entrelaçar os braços, é a runa do aprofundamento das relações entre os homens e a manaz que se forma na conexão com o outro através da junção das mãos, reforça a idéia de que o “eu” se realiza com o outro e não sozinho. Labirintos, estrelas, entre outros desenhos geométricos também são utilizados nas Danças Circulares. Cada uma dessas formas tem sempre um significado profundo e um objetivo a atingir.

 Renata Carvalho destaca que todos estes significados são bastantes profundos e fazem parte de um extenso arquivo de registros escritos, da experiência e do cruzamento de diversas formas de estudos que visam o conhecimento e a busca interior.Repetições de gestos. Lembramos aqui, que cada um destes símbolos é sempre repetido nas coreografias. As tradições místicas desenvolveram práticas psicotécnicas, todas baseadas na idéia de que o Todo impregna tudo que existe, inclusive o homem e, por isso, podemos procurá-lo dentro de nós.

Assim, essas práticas dependem fundamentalmente da postura e da repetição rítmica de fórmulas sagradas: o ritmo e o som são considerados essência e veículo de vida, como, por exemplo, acontece quando você recita um mantra hinduísta, pratica um pranayama budista, faz uma “oração a Jesus” ou recita o zikr islâmico, nos quais a respiração é considerada essência e veículo de vida.A Dança Sagrada HojeComo destacamos no começo as Danças Circulares Sagradas iniciadas com o bailarino Wosien, nasceram das tradições folclóricas de vários povos e hoje são trabalhadas de modo a possibilitar que o homem retome valores perdidos. “E, enquanto a vida moderna leva a uma massificação beirando o insuportável, a Dança alimenta o vínculo único que cada um tem com a Terra”, escreve Celine Lorthiois, que aplica a Dança a pedagogia.

O potencial de transformação que estas danças exercem sobre os bailarinos é o mesmo atingido com outras formas de meditação, com a vantagem de que no geral estas danças são aprendidas mais rápida e facilmente, enquanto as outras técnicas, muitas vezes, dependem de anos de treinamento para que os praticantes sintam os benefícios. Entre os resultados apontados pelos bailarinos das “Danças Circulares Sagradas”, estão a elevação da auto-estima, da auto-imagem, da auto-confiança, do equilíbrio num todo. A pessoa encontra uma maior paz interior e uma maneira muito especial de relacionar-se com o outro, o que acaba refletindo também fisicamente.

“O gesto de dar as mãos, sem saber quem está a direita ou a esquerda, apenas sentindo o outro, percebendo seu aperto firme ou suave e se a mão está quente, fria, morna, seca, úmida... Tudo isto nos faz sentir dentro de um grupo”, declara a aposentada Nadir Mercedes Tineron, uma entusiasmada praticante

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Artigo Escrito por Luciana Araujo  

 

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