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Jorge
Sabongi criou
e dirige até hoje a Khan el Khalili (desde Junho/1982).Conhecida também
como a ‘Casa de Chá’, a Khan el Khalili é um espaço diferenciado em
que temos um restaurante, uma cafeteria, um espaço de eventos culturais e
show de dança oriental. É brasileiro, descendente de sírios e libaneses (com ramificações no Egito) e natural de Tupã-SP. Economista (desde 1982), pela Faculdade de Ciências Econômicas de São Paulo - Fundação Álvares Penteado. Possui também formação em Hotelaria, Contabilidade, Enologia e Alimentos & Bebidas. Após mais de vinte anos como responsável pela direção e preparo artístico das bailarinas da Khan el Khalili, Jorge decidiu compartilhar seus conhecimentos e iniciou neste ano de 2008 o Curso de Direção e Preparação Artística, que tem sido um grande sucesso e de conteúdos fundamentais para toda bailarina que tenha um compromisso com a Dança. Jorge gentilmente concedeu esta entrevista e agora vocês podem conferir porque ele é tão bom no que faz e está há tantos anos no topo do mercado da dança oriental e de eventos e promoções acerca do mundo árabe. Com certeza, Jorge também possui sua ‘Estrela’ que ainda tem brilho por muitos anos. ______________________ Há
mais ou menos uns 20 anos atrás, uma secretária chamada “Bia”, começou
a me chamar de “Habib”, durante o expediente da Casa de Chá.
A princípio estranhei um pouco, pois soava engraçado e ao mesmo
tempo, um pouco íntimo demais. Alguns dias depois, comecei a achar também um pouco
pejorativo. Aos poucos fui
percebendo que era uma forma carinhosa mesmo de me tratar.
Não havia maldade nem segundas intenções.
Algumas pessoas começaram a me chamar de Habib também porque
repararam que quando ouvia esta palavra eu olhava, mesmo assim, para mim
continuava soando esquisito. Aí
as primeiras bailarinas começaram a chamar também. Ano após ano gerações de bailarinas foram se sucedendo e
isso ia acontecendo de forma natural.
Uma
vez, após um grande evento fomos comer fora num restaurante.
Como o nosso grupo era formado pela maioria de bailarinas era um
tal de Habib pra cá, Habib pra lá e num determinado momento um sujeito
me chamou num canto e perguntou: “Meu, vem cá, me diz: onde você arrumou esse Harém?”
E eu respondi: “Você pode não acreditar, mas é um Harém de verdade,
mesmo!”. E ele: “Como é
que eu faço para um monte de mulheres me tratarem assim: Habib, Habib,
Habib?” Falei:
“É simples: seja um Sheike e tenha um Harém você também!”
O sujeito não entendeu nada. Atualmente,
todo o pessoal que é mais próximo me chama de Habib. É uma curtição. 2- Em todos esses anos à frente da Khan El Khalili, você já viveu muitas histórias e situações. Como economista, soube administrar muito bem as flutuações do nosso mercado financeiro. E em relação à dança? Houve períodos de ‘entressafra’ ou a Casa sempre teve um bom acervo de bailarinas especiais, com qualidade? Em todo caso, é constante a sua direção para manter o padrão de qualidade na dança da casa ou há períodos e elencos que não precisam de sua orientação constante? Manter um negócio seja ele qual for
atualmente no Brasil não é uma tarefa fácil.
Além da carga tributária elevadíssima, de uma economia dita
“aparentemente estável” vivemos situações em que o “social” em
nosso país foi esquecido há muito por nossos governantes. Experimente
precisar de qualquer órgão governamental: nada funciona, tudo demora,
atendimento sempre precário, enfim é literalmente um caos.
Observe atentamente qual destas modalidades você acha que funciona
bem: saúde, transportes, segurança, água e esgoto, previdência... Para um país em que se paga o imposto mais alto do mundo,
estamos mal servidos. Pagamos
tantos impostos a peso de ouro e recebemos apenas promessas ao vento de
melhorias. Todos
que vêem a Khan el Khalili funcionando hoje em dia, não tem idéia das
dificuldades que foi manter um empreendimento deste tipo, em todos estes
anos, com tantos planos econômicos mirabolantes, com tantos momentos de
dificuldades financeiras para a maioria das pessoas enquanto bancos batiam
e batem cada vez mais recordes de lucro.
Tudo um contra-senso. Houve
períodos de recessão, em que nada andava na nossa economia e mesmo
assim, conseguimos sobreviver, muitas vezes no vermelho.
Outro dia, olhando uma agenda telefônica da KK de 20 anos atrás,
me assustei com o número de fornecedores nossos que não existem mais.
Mais de 80% fecharam. Sobreviver
a quase três décadas no Brasil é uma tarefa de heroísmo. Mas
voltando a sua questão com relação à dança, é importante lembrar que
sempre primamos pela qualidade da dança, desde o início.
Isso que dizer que o nível de exigência sempre foi alto.
No começo muitos achavam que o grupo era extremamente fechado, mas
sempre houve oportunidade para todas que estivessem em condições técnicas
e, é claro, dentro dos padrões
estéticos exigidos pelo mercado. Aprendemos
que, em se tratando de dança do ventre profissional “O
público define o que deseja assistir, não nós.” Tentamos
por diversas vezes contrariar esta regra, mas não conseguimos sucesso.
O resultado é que, todas as vezes que de alguma forma, negligenciávamos
isso, o público diminuía a fluência.
Existe uma dose de fantasia nas pessoas que vão a um lugar que tem
show de dança do ventre ou que contratam uma bailarina para um evento.
As bailarinas tem obrigatoriamente que ter aparência de princesas,
roupas belíssimas e corpo perfeito.
O público em geral observa a técnica em segundo plano. Já
na KK a exigência é maior. Aqui
o público quer ver tudo isso e muito mais.
Erros ou falhas comuns não são perdoados.
Por termos nos tornado uma vitrine de dança do ventre no país
temos obrigação de apresentar tudo impecável.
É um preço alto a pagar. Isso
é claro, limitou em alguns períodos a quantidade de bailarinas disponíveis
para dançar e executar os shows da forma como desejávamos.
Até 1988 o grupo era bem pequeno.
Tinha em média 10 a 15 bailarinas.
Após este período, Lulu começou a dar aulas.
Aí boas bailarinas começaram a aparecer por atacado a partir de
1991. Acontecia
uma situação interessante: um
monte de gente aprendendo dança só que sem o menor preparo de cena ou noção
de palco. Faltava um
complemento para o aprendizado destas bailarinas novatas. As
professoras ensinam nas salas de aula, mas elas não podem acompanhar cada
aluna e dar a direção que cada uma delas necessita nos shows para fazer
correções, mesmo porque, muitas delas nem tem como corrigir imperfeições
por falta de estrutura de ensino ou conhecimento sobre a cultura árabe. Percebi
então que meu trabalho entrava onde acabava o trabalho das professoras.
Alguém
tinha que dizer com franqueza o que era certo e o que não devia aparecer
para o público. Corrigir
movimentos, postura, e situações básicas de comportamento de
bastidores. Mais que isso,
direcionar as bailarinas de forma que observassem de forma crítica tudo o
que fizessem. Faze-las
acordar para a expressão e o sentimento com a música.
Coibir exageros e incentivar as iniciativas interessantes de cada
uma. Controlar egos e
privilegiar as atividades de grupo. Qualquer
bailarina que sai de sala de aula pensa que show é fazer o que aprendeu
na aula em frente ao espelho. A
maioria leva anos para perceber que não é bem assim. Existe
todo um trabalho cênico e preparo pessoal para encarar o grande público.
São muitos macetes para assimilar em pouco tempo.
E eles só são incorporados por bailarinas após uma série de
sacrifícios e dificuldades ao longo da carreira.
A
inexistência de direção faz com que em muitos casos, bailarinas percam
o bom senso e extrapolem a realidade da cultura árabe.
Perdem a referência e acabam acreditando de verdade que tem razão
naquilo que criam. Mistificam
e desenvolvem doutrinas para suas alunas que viram verdadeiros cultos.
É preciso ter em mente que o mercado de dança do ventre cresce
por um processo de “duplicação”: umas copiando as outras.
Logo, se uma professora faz algo desmesurado, suas alunas vão
fazer pior, e as alunas de suas alunas vão “duplicar” o que é
errado, de forma mais errada ainda. Imagine
isso na 10ª geração o que se torna.
É exatamente como aqueles telefones sem fio que fazemos nas
brincadeiras quando crianças. Um
fala para o outro uma frase... e quando chega no 10º ouvinte virou uma
estória sobrenatural. É
aí que entra a “direção”. O
próprio nome já diz. Trata-se
de um mediador. Alguém que
apara as arestas. Todas
as bailarinas da KK, sem exceção tiveram sua dose de direção para se
tornar o que hoje são aos olhos do público.
A medida que as correções iam sendo feitas, progressos
aconteciam e o grupo se consolidava cada vez mais.
Hoje temos um elenco de altíssimo nível, forte e equilibrado.
E
durante tantos anos, as pessoas se perguntavam: “O que acontece com as
bailarinas da Khan el Khalili que são diferentes?”
A resposta? Elas
sempre tiveram “direção”. 3- Você toca snujs e, parece-me, tocava derback também, até acontecer um acidente em que você machucou a mão. Poderia falar sobre isso? O que significa para você, o momento de tocar os snujs? Durante o transcorrer de nossa vida acontecem coisas que mudam completamente o rumo e não temos a menor noção do porquê. No início de 1983, sofri um assalto, o qual reagi e levei um tiro na mão e outro na perna. O que pegou na coxa direita não me causou nada, mas o da mão direita, me tirou o movimento do dedo indicador no sentido horizontal. Isso não me impossibilitou de nada, mas no que se refere ao derback, não tenho como realizar o floreado com a mão direita como gostaria. Isso já não acontece com os “snujs”.
Tocar
snujs para mim atualmente é um momento de descontração e mudança de
astral. Me ativa os sentidos
e se estou de certa forma não tão equilibrado emocionalmente, ou risonho
como gostaria, basta tocar apenas uma música que tudo muda.
Isso transparece no meu rosto e na minha expressão. Não toco por tocar, mas por prazer. 4- Uma característica de sua personalidade que eu gosto muito, é a paixão pelo que faz e a generosidade em compartilhar tudo com quem quer aprender. Sempre foi assim ou houve momentos em que as poucas virtudes das pessoas te desanimaram? Sempre
acreditei nas pessoas por mais que a vida me desse invertidas em momentos
inapropriados. Tenho um
mecanismo dentro de mim que não consegue se zangar por muito tempo com
alguém. Compartilhar o que
aprendi na minha vida sempre foi um prazer.
“Você sabe exatamente quantas sementes existem dentro de uma maçã;
mas não tem idéia de quantas maçãs existem dentro de uma semente”.
Partindo deste princípio, a crença de compartilhar o que se sabe
fica mais fácil. É um
orgulho saber que o que você ensina e passa para frente com sentimento e
dedicação se desenvolve em progressão geométrica;
um dia, o que você fez dá frutos lá na frente, muitos anos
depois. Já tive oportunidade
de sentir este efeito muitas vezes e pode acreditar, é uma das melhores
sensações que um ser humano pode ter.
Amanhã
todos pereceremos, mas o que ensinamos, surtirá um efeito eterno.
Isso é o melhor reconhecimento que você pode dar a si próprio.
Saber que o que faz, faz bem feito
e sem esperar retorno, um dia vai te surpreender de forma positiva. Se
mesmo assim, não acontecer de forma positiva, não desista.
Você vai entender quando aparecer o resultado. 5- Habib, você tem um amplo conhecimento do mundo árabe em geral, não só dança, mas alimentos, comportamentos e a arte da música. Mas conte-nos: qual o segredinho do Karkadeh, esse chá de-li-ci-o-so que a Khan el Khalili tem? E por favor, cite quais os quitutes mais elogiados pela clientela da casa. Um
dia na faculdade, sentado na “turma do fundão”, eu ria com um amigo
meu quando um professor que se chamava “Tchela” falava lá na frente.
Mas o nosso riso era porque o sujeito era um crânio.
Uma inteligência absurda. Como
eu sentia inveja daquela inteligência (no bom sentido, é claro!).
Lembro
do dia que falei para minha turma: “Para eu ter a inteligência do
Tchela, teria que ler livros todos os dias, durante umas 15 encarnações!" Pensei: "Se o Prof. Tchela consegue em uma vida, por que
qualquer um de nós não conseguiria? É uma questão de determinação
pessoal. Esse comentário fez
a grande diferença em minha vida! Já
gostava de ler antes, pois desde a adolescência tinha tomado a decisão
de aprender algo todos os dias com leituras de marketing e propaganda,
administração e economia. Daquele
dia em diante, tomei a decisão de ler muito mais.
Eu queria a ter inteligência dele.
Passei a comprar livros e livros.
Sobre tudo o que me suscitasse interesse.
Já cheguei a ler 18 livros ao mesmo tempo.
Meus amigos passaram a rir de mim, pois achavam isso um fenômeno.
Muitos não compreendiam como eu conseguia me concentrar em tantos
assuntos diversos. Minha
biblioteca tem atualmente mais de 6.000 livros e crescendo sempre mais.
Li grande parte deles e atualmente tenho uma paixão especial por
livros que versam sobre história da humanidade, geografia econômica e
Oriente Médio. Só lamento que não viver o suficiente para ler todos. Acredito
que este é o maior legado que poderia deixar para meus filhos: a paixão
pela leitura. Mas
vamos falar sobre o chá... O
karkadêh egípcio é um chá a base de flor de hibiscus.
Seu sabor é exótico, herbáceo.
Azedinho no começo e docinho no final.
Toma-se quente ou frio. No
Egito é o chá de preferência nacional.
Em todo lugar que você vai, te oferecem este chá para o início
de uma boa amizade, conversa ou negociação.
Uma
vez um amigo me perguntou o que eu achava que o chá fazia por nós e eu
respondi que o chá nos trás “felicidade”.
Porque? Pelo
simples fato de, em função dele, haver uma aproximação com as pessoas. O que mais pode ser chamado de felicidade do que você parar
um momento na sua vida e se aproximar de alguém que gosta, para
simplesmente, conversar? O chá
lhe possibilita isso: ele aproxima as pessoas.
Da mesma maneira que um cafezinho.
Quando você chama alguém para um chá ou cafezinho, você está
dando asas à sua vontade de ter uma companhia agradável, mesmo que seja
simplesmente para jogar conversa fora.
O chá de karkadeh tem, para os egípcios, exatamente esta conotação. Com
relação aos quitutes da Casa que são mais elogiados, eu diria que todos
eles tem, cada qual, o seu fã clube.
Tem gente que adora as saladas árabes ou os sanduiches que são
servidas na cafeteria. Outros
preferem determinados tipos de patê ou pães.
A preferência nacional é pelos nossos salgadinhos.
Tem gente que cruza a cidade, já sentindo antecipadamente o sabor
deles no caminho. Já chegam
na porta com água na boca perguntando se tem aquela coxinha de catupiry
ou aquele kibe apimentado. Isso
quando não entram dizendo: “hoje quero comer uma dúzia das esfihas”. 6- Pode-se dizer que você é um homem à frente do seu tempo. Quando a dança ainda era pouco divulgada em nosso país, você a colocou como destaque na Casa de Chá. Antes mesmo da onda de ‘vídeos didáticos’ estourar, você orientou e dirigiu Lulu Sabongi no lançamento de seus vídeos; quando o narguile ainda era apenas peça de decoração, você criou a Sala da Shisha e por um período muitas pessoas conheceram o hábito de ‘shishar’ e outros restaurantes e casas do gênero também começaram a ter esse espaço; agora você criou a Cafeteria, um espaço que além de prático e ágil, oferece muitas opções multi culturais. Diga: de onde vem tanta inspiração e idéias que estão sempre há frente? Qual a maneira de trazer isso para a nossa vida prática, em termos de tornar nossa dança e carreira nada previsíveis? Apenas
uma ressalva. Quem criou a
Sala da Shisha foi Lulu. Eu
sempre abominei tudo o que fizesse fumaça.
Desde 1982 proibi o fumo na KK (depois uma secretária de um
deputado ligou aqui para perguntar se dava resultado e se as pessoas
aceitavam). Portanto, os láureos
da shisha não devem vir para mim. Primeiramente,
“criar” é uma questão de abertura com todo tipo de idéias, desde as
mais extravagantes até as mais normais.
Imagine você fazendo uma bolinha de neve com as duas mãos e
jogando numa ladeira íngreme. Quando
ela chega lá embaixo cresceu muito.
Assim funciona com tudo o que você tem de idéias.
A idéia inicial, por mais ridícula que pareça, é a bolinha que
você vai arremessar. Você
tem que estar atento a tudo que te cerca e procurar observar o que cabe em
seu contexto de vida. Acaba
sendo uma habilidade a mais com o decorrer do tempo.
Em se tratando de descobrir ou pensar em coisas novas, tudo vale. Existem dias que você está com idéias geniais circulando
na mente, outros, nem que faça todo o esforço e concentre-se o dia todo,
nada sai. Acredito
muito na minha intuição. Há
muitos anos e por muitas vezes pude perceber, ela
realmente funciona. A idéia de “querer fazer” é algo que todo mundo deseja. A questão principal é “como realizar” ? Aí é que está o “x” da questão.
Muitas
pessoas são ótimas para criar, mas na hora de realizar, não conseguem
colocar mãos a obra. Elas
tem, dificuldade em começar algo e ir até o fim.
Bolam algo, mas não anotam em lugar algum e a idéia se perde.
Falam para todo mundo que vão fazer algo e nunca começam.
Não administram data para iniciar algo.
Sempre fica para amanhã, a semana que vem ou “em breve”. Um
exemplo prático e rápido: não adianta você querer emagrecer se não
tomar a “decisão” de começar imediatamente.
Fazer sua dieta de forma objetiva e não deixar-se levar por doces,
frituras, refrigerantes e outros excessos.
Se você não está contente com o que vê na frente do espelho,
deve colocar na cabeça que “precisa de novos hábitos”.
A questão é: vai começar a realizar quando?
A resposta: AGORA!
É
preciso que se entenda uma coisa: é a “ação” que define se seus
projetos vão para frente ou não. Quem
não tem ação, infelizmente fica na vontade de fazer algo sempre.
Pior ainda, nunca está satisfeito com o que cria. Para
você estar sempre criando é necessário colocar para si que não basta
pensar; tem que colocar em prática e rápido.
Idéias, vem e vão. Idéias
geniais aparecem, muitas vezes uma atrás da outra e você tem que estar
atento as oportunidades que elas trazem.
Por isso ande sempre com um bloquinho de notas e uma caneta na
bolsa. Mesmo quando vai ao
banheiro (foi num banho que surgiu a idéia da Khan el Khalili). Colocar
em prática não é simples, mas pode se tornar, se você criar o hábito
de rabiscar, pensar no contexto inteiro, encontrar os prós e os contras e
já iniciar todo processo imediatamente.
Nem que seja telefonar para os lugares para saber quanto custaria
se começasse agora. Outro
fator importante é dar asas a intuição.
Brinque com você mesmo de adivinhar tudo.
Adivinhe em quantos segundos vai abrir o farol e conte baixinho. Adivinhe que música você vai encontrar no rádio e confira.
Adivinhe que horas são exatamente e olhe para o relógio.
Você vai se surpreender como o treino te deixará aguçada a sua
intuição. Brinco
com isso desde menino e para minha surpresa, foi milhares de vezes que
“coincidentemente” acertei algo que estava acontecendo ou iria
acontecer. Na verdade, não
acredito em coincidências. As
coisas, muitas vezes, acontecem porque algo que desconhecemos, uma força
ou uma energia, as impulsionam para nossos objetivos.
Temos que ser um bom agente nesta interligação.
Somos os arquitetos de nossas vidas e nossos projetos. Ser
uma pessoa visionária está em cada um de nós.
No desejo de realizar e de enxergar, com fantasia ou não, como
tudo vai funcionar depois de pronto.
Ser visionário é acreditar que a bolinha de neve vai crescer e
rolar até não parar mais. A
alegria disso tudo? É saber
que esta mesma bolinha saiu das suas mãos. 7- Jorge, uma das pessoas que estão sempre pela casa (e que eu infelizmente ainda não tive oportunidade de conhecer) é o egiptólogo Wallace Gomes. Poderia nos contar como surgiu esse ‘encontro’ tão bem sucedido entre vocês? E fale-nos também da arte da Pintura que Wallace tão bem expressa nas paredes da casa. É outro diferencial, pois tem qualidade e estética, diferente de grafites e pichações que outros lugares temáticos têm. Wallace
é uma das pessoas mais queridas da KK.
Começou a freqüentar a Casa quando ainda era pequeno.
Tinha cabelos longos e adorava tudo que dizia respeito ao Egito.
Lia e lê muito até hoje. Aprofundou-se
no tema e paralelo a isso, descobriu que tinha um talento nato para
esculturas e pinturas. Tem
uma personalidade extremamente generosa.
Divide o que sabe sem parcimônia com todos.
Pode-se ficar horas falando com ele.
É sempre um grande aprendizado. Quando
ainda era menino, ele sempre vinha na KK e trazia uma pequena escultura egípcia
que havia feito em casa para trocar comigo por um chá completo. Até hoje tenho diversas peças dele, as primeiras que fez.
Sabia que ele tinha muito talento.
Era uma questão de alguns anos apenas. Com
o passar do tempo, convidei-o para pintar as paredes da Khan el Khalili e
para a minha surpresa, elas
ficaram idênticas as originais pintadas nas tumbas egípcias.
Fui
saber então que ele estudava todas estas imagens e sabia o significado de
cada uma delas. Seu
conhecimento era ainda maior do que eu imaginava. Quando
tínhamos um fórum da KK, ele respondia as perguntas de egiptologia e
sempre surpreendia com a
riqueza de idéias e informações de suas respostas.
Chamei-o então para dar palestras na Casa de Chá sobre o Egito
Antigo. Passaram-se mais de
20 anos e Wallace continua conosco. Quem
o conhece pode atestar tudo o que estou falando. 8- Jorge, eu conheci a Khan el Khalili no ano de 2001 e desde então, eu sempre estive presente nos eventos, workshops e momentos variados da casa. Lembro com carinho do antigo Fórum da Khan el Khalili, que na época inovou criando um espaço de discussão e informação saudável e muito enriquecedor. Lembro-me também que eu estava no seu primeiro workshop de snujs, em 2004, e anos depois assim como muitos, fiquei surpresa na época em que você e Lulu seguiram rumos diferentes em suas vidas pessoais, porém mantendo um elegante e civilizado vínculo através da arte. Hoje, percebo que a Khan el Khalili vive um momento de ampliação e novo crescimento, trazendo mais cursos e eventos, além da já citada qualidade nos pratos e bebidas da casa (aliás gente, experimentem o sorvete Anúbis da Cafeteria é o máximo!). Habib, faça um resumo, um parâmetro, enfim, conte o que tem sido essa trajetória para você como pessoa e empresário. Isso
daria para escrever um livro. Vou
tentar resumir... Ao
longo destas quase três décadas muitas coisas aconteceram.
Quando abri a KK em 1982 era um menino de 22 anos.
Queria muito ter um negócio próprio que desse certo.
Como mencionei anteriormente, gostava de sempre criar coisas novas
e os empregos em que estive anteriormente não me possibilitavam colocar a
criatividade para fora. Então
resolvi abrir algo meu. Nem
que demorasse anos para conseguir. A
idéia da KK surgiu em 1980. Dois
anos depois ela existia fisicamente.
Restava fazer ela sobreviver, o que seria uma situação bem mais
difícil. Tivemos
a oportunidade de ampliar diversos horizontes nesses anos todos como sendo
sub produtos da Khan el Khalili. O
produto principal em si era a Casa de Chá.
Ela é e sempre foi a célula-mãe, a bola de neve inicial.
Depois vieram pelo menos umas 20 variedades: aulas, shows externos,
cds, vídeos, revistas, personagens infantis, Noites no Harém, pré-seleção,
griffe, programa “O Harém” na Internet, site cultural, workshops,
cafeteria, sala da shisha, Super Noites no Harém, cursos, livros (em
compilação), e outros. Todos
tiveram sua época e muitos, mantêm-se até hoje. O
Fórum e a Comunidade do Orkut, eram interessantes, mas resolvemos tirar
do ar por diversos motivos. O
principal deles era a necessidade de um monitoramento para evitar atos de
vandalismo, que passaram a ser freqüentes.
Então, achamos conveniente não nos expormos. Hoje
para mim, a Khan el Khalili pode ser considerada uma realização com
diversas ramificações. Mas
um fato curioso que sempre paro para pensar é que a partir do momento
em que ela passa a ser previsível e sem desafios, eu dou um jeito
de criar uma nova possibilidade de mercado ou inovação.
Acho que faço o tipo “querer arranjar uma nova sarna para se coçar”
a medida que as coisas tendem a um assentamento. Tenho a impressão que jamais teria condições de
criar algo e conviver apenas com uma única possibilidade, isto é, abrir
um negócio e ficar atrás de um balcão ou simplesmente no caixa, apenas
cobrando. Seria a minha morte
cerebral. Meu negócio é
pipocar sempre coisas novas. Ser
empresário no Brasil é fazer papel de mágico a cada dia que passa.
Um operador de milagres. Um
ilusionista, muitas vezes para você mesmo.
Tem horas que penso que estou doido, porque penso em algo e vejo
que ninguém pensou. Aí me
pergunto: “Como é que tenho uma idéia dessas e ninguém apareceu com
isso ainda?” Não tenho a
menor dúvida... coloco em prática no ato. Ter
um negócio no Brasil, é sinal de que você tem que colocar a prova seu
sangue-frio constantemente e concomitantemente a isso, tem que estar
sempre aquecendo seu coração para lidar com pessoas e situações.
Muita gente se endurece pelo fato de ter que passar por situações
de pressão. Eu procuro rir
sempre da situação e colocar mãos a obra.
É a melhor maneira de sobreviver no mercado; a verdade é que não
existe um dia igual ao outro. Por
isso, se o dia de hoje foi ruim, não quer dizer que isso irá perdurar.
Se foi excelente, mantenha-se equilibrado também para não perder
o chão e achar que tudo vai ser essa maravilha eternamente.
Posso dizer que a rotina inexiste na Khan el Khalili. Se
eu morresse hoje, fecharia os olhos com a sensação do dever cumprido,
sabendo que dei o melhor de mim em cada coisa que fiz.
Principalmente, sempre usei tudo o que aprendi para propagar de
forma positiva com novas possibilidades.
Mais, procurei sempre favorecer muitos de alguma maneira,
principalmente em conhecimentos e sonhos. O
que aprendo, o que sei, eu passo pra frente, sem dó. 9- No seu curso ‘Direção e Preparação Artística’ teve um módulo em que você literalmente deu uma ‘aula’ sobre OmKhalsoum e o comportamento do povo egípcio. Finalmente entendi o porque de OmKhalsoum ser tão importante, suas músicas tão introspectivas e poéticas. Você pode falar sobre isso aqui, ou escrever um artigo no site da casa ou vai deixar apenas para os privilegiados que fizerem o curso? (se você não falar eu também não falo,ok?!) Gostar
de dança árabe faz você querer imediatamente conhecer um pouco da
realidade do povo egípcio: seus costumes, tradições, correntes de
pensamento e a forma como eles observam o mundo e as situações.
Isso tudo é retratado na música.
Principalmente, nas músicas clássicas, na interpretação de um
de seus maiores mitos: UmKhalsoum. Gostar
de música egípcia é aprender a gostar de OmKhalsoum.
São músicas que realmente emocionam a medida que você consegue
observar o grau de sensibilidade, tanto na poesia das letras, como na
harmonia instrumental das orquestras.
São verdadeiras obras-primas musicais. Poderia
falar dela um dia inteiro e não seria o suficiente para transmitir tanta
emoção que suas canções nos fazem enlevar.
Um
pouco mais sobre tudo o que OmKhalsoum representou e representa pode ser
encontrado no link: http://www.khanelkhalili.com.br/curiosidades%204.htm
(página de Curiosidades 4 do nosso site). Somente
quando uma bailarina dança uma música de Om Khalsoum é que ela percebe
o quanto tem a aprender em termos de sutileza nos movimentos, riqueza
coreográfica e encanto. 10- Habib, para finalizar, cite para as bailarinas quais os pontos mais importantes que elas devem ter na dança e no comportamento dos bastidores. E se você puder, cite alguns nomes de bailarinas que, para você, são exemplos de conduta ou talento. É
praticamente impossível citar nomes de bailarinas na questão de conduta
e talento sem levantar suspeitas ou atiçar ânimos avessos. Sempre que me pedem para citar nomes de bailarinas, prefiro me
eximir. Tenho minha opinião
formada sobre cada uma delas, pois a forma como observo seu direcionamento
é algo muito peculiar. Muitas
vezes, quando cito algumas, brinco com situações engraçadas ou cenas
pitorescas (que aliás são muitas), de cada uma delas.
Seus progressos, seus exemplos de perseverança e principalmente, a
forma tranqüila de lidar e se comportar em palco e bastidores. As
bailarinas KK possuem uma disciplina e rigidez que é aprendida aqui
dentro desde que começam a estagiar.
Isso evidentemente as diferencia na questão de conduta de
bastidores. A exigência é necessária se você pensar que são tantas
cabeças pensando de forma diferente e todas coordenadas para um único
objetivo de grupo. Ajustes
aqui e ali são sempre feitos e vive-se harmoniosamente numa turma com
mais de 100 profissionais ativos. O
mais importante: todas aceitando equilibradamente o trabalho de equipe e
convivendo bem com as diferenças individuais de cada uma.
Todas têm defeitos e tem noção disso; todas se ajudam, e, o mais
interessante, todas se ensinam. Isso
aqui uma verdadeira universidade da dança oriental com pós-gradução e
tudo. Isso é para nós um
grande orgulho. Em
poucas palavras eu diria que a bailarina nos bastidores deve ter o mesmo
comportamento que teria num palco com aproximadamente 2000 pessoas na platéia
observando cada movimento seu. É
necessário, portanto ter bom senso, policiar-se para não cometer gafes
que a tirem de sua posição perante as pessoas que as observam em silêncio
esperando ver “como se comporta tal princesa” (não tenha dúvidas,
apesar de disfarçando, todos estão te observando quando está vestida
como bailarina, mesmo de “abay”). Saber a hora de falar e a hora de calar.
Não contar vantagens. Ser
delicada e ter noção do momento de se retirar. Existem
bailarinas que ao longo de suas carreiras traçam um perfil ético e se
mantém naquele perfil, independente das situações que venham a passar
ao longo dos anos. Constroem
personalidades equilibradas e bem humoradas.
São bem aceitas onde quer que vão.
Não possuem diferenças com outros clãs.
Seu ego é um exemplo a ser seguido e não interfere em nada no seu
convívio com as mais variadas pessoas.
Respeita o seu público, mesmo na hora de tirar uma foto ou dar um
autografo. Impecáveis nas
rotinas que envolvem seu trabalho e disciplinadas nos horários
estabelecidos. Este é para
mim, um exemplo de conduta. 11- Muito obrigada por conceder essa entrevista e por compartilhar com todos os seus conhecimentos. Por favor, utilize esse espaço para falar sobre o que quiser e leve o carinho em meu nome e em especial, de todas as bailarinas de Guararapes-Sp. Eu
que agradeço a oportunidade de poder falar um pouco sobre estes assuntos
a todos. Vejo
que muitas pensam em termos de escassez quando o assunto é dança do
ventre. Sempre foi
assim. Desde que o mercado não tinha mais do que 10 bailarinas. Sentem
receio de perderem suas posições. Ficam
ressabiadas em diversas situações, pensando sempre que o mercado pode
saturar se fizer uso de suas informações. Tá
na hora de mudar esse conceito, totalmente fora de moda.
Vamos deixar de pensar com miopia comercial. É hora de aguçar a visão e ter olhos de lince. Queria
deixar aqui uma mensagem especial para todas as bailarinas para que sempre
pensem em termos de “abundância” em tudo o que fizerem.
Fartura, entendem! Existe
um vasto mercado em nosso país e espaço para todas, independente da
cidade que moram ou da quantidade de profissionais que atuam nos grandes
centros. Se você tem
interesse em seguir carreira, faça essa opção desde já, e lembre-se,
quanto mais você olhar para frente, e se dedicar, mais portas vão se
abrir automaticamente com o passar do tempo. Os
anos me mostraram que a progressão é geométrica para quem faz um
trabalho direcionado e bem feito. Essa
deve ser sua maior preocupação. Se
você primar por qualidade em tudo o que faz, o caminho será mais curto
sempre. Você pode não ver
os resultados imediatos, mas eles estão acontecendo. Esqueça
as picuinhas, as diferenças, os disse-que-me-disse; isso é coisa de quem
não tem perspectiva e tem baixa auto-estima.
Funcionam como uma âncora para seu avanço.
Não perca tempo. Olhe
para frente e caminhe sempre. Falaram
mal, deixem falar... apenas caminhem e melhorem mais na próxima. A
sua estrela está aguardando o seu polimento.
Quer deixa-lá apagada, ou quer faze-la brilhar? Um
dia nos encontraremos, e você poderá me dizer, olhando nos meus olhos, o
quanto isso teve de verdade na sua carreira. Abraços
a todos e espero vocês na Khan el Khalili! Jorge Sabongi (Habib) (sob
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