Entrevista com Débora Sabongi 


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Débora Sabongi é brasileira, nascida em São Luís-MA, em 1974. Bailarina de dança árabe da Khan el Khalili desde 2001, atualmente ministra aulas e dança na Casa de Chá. É formada em Administração de Empresas e dirige, ao lado de Jorge Sabongi seu atual esposo, a Khan el Khalili.

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 1-       Débora, você tem cerca de 26 anos de experiência com o ballet clássico. Conte-nos a importância desta modalidade para a bailarina de Dança do Ventre.

 O Ballet nos ajuda a entender a importância da disciplina e da perseverança na dança. Desde cedo, adquirimos o hábito de freqüentar as aulas e tomamos consciência do quanto é imprescindível as sequências de exaustivos movimentos diários.

 Não se pode deixar de afirmar que o ballet ajuda de forma considerável o desenvolvimento da bailarina de Dança do Ventre. Os braços e postura são os primeiros pontos a serem notados em quem faz dança clássica. Técnicas de alongamento, equilíbrio e giros também são favoráveis à dança árabe.

 Enquanto bailarina clássica (ballet) adquiri conhecimentos preciosos sobre teoria da música (aulas de piano, mais tarde), história da dança, terminologia do Ballet Clássico, noções de anatomia, aulas de expressão e teatro, entre outras tão necessárias para se destacar nesta área como aulas de repertório, Pas de Deux, e muito mais.

 Como bailarina de dança do ventre é aconselhável buscar conhecimentos que agreguem valor ao nosso trabalho, seja para se manter apenas em shows ou em aulas. Mas não é preciso ficar preocupada se não teve início no ballet para alcançar resultados favoráveis. Na realidade, o sucesso depende de uma série de fatores. Existem muitas bailarinas se destacando no mercado que não passaram pelas aulas de ballet. Ele veio acrescentar elementos à nossa dança, e não nos tornar escravas de sua rigidez. Amo o ballet, mas a liberdade que a dança do ventre nos dá, me apaixona a cada instante.

 2-       Ao descobrir a Dança do Ventre, você aperfeiçoou seus conhecimentos em São Paulo, mesmo morando no Maranhão. Como foi, na época, dançar fora do eixo Rio-São Paulo? Há dificuldades para quem é de fora, ou, para você, o talento não tem barreiras?

       Eu já tinha passado por algo bem parecido quando decidi me transformar em bailarina clássica profissional. Iniciei as viagens para o Rio aos 13 anos e não parei mais. Outras cidades foram se incorporando como centros de estudo: Brasília, Niterói, Belo Horizonte, São Paulo, Fortaleza, Belém, Londrina.

 Com a dança do ventre não foi diferente. Quando percebi que queria estudar de forma mais séria, minha professora no Maranhão me mostrou um vídeo da Soraia Zaied e me apresentou a Khan El Khalili. A partir desse momento, as viagens para São Paulo tornaram-se constantes. Eu tentava não ficar por mais de três meses sem atualização, por isso estava sempre nos workshops e cursos disponíveis em São Paulo.

 Dançar fora do eixo Rio-São Paulo não é tão fácil, principalmente há algum tempo atrás. Acredito que o que mais dificulta seja o deslocamento. Geralmente as passagens têm um valor elevado para quem está iniciando seus investimentos na dança. Na maioria das vezes, quem começa dança não dispõe do valor necessário para adquirir material didático, roupas de shows, acessórios, e ainda cobrir gastos com passagens para os grandes centros, arcando com sua estadia e refeições.

 Acredito que o talento não tem barreiras. Mas precisamos, também, gerenciar as nossas finanças. Ter talento talvez ajude a encontrar patrocinadores, porém não é garantia de sucesso.

 3-       Além da formação clássica, você tem a formação profissional em Administração de Empresas. Fale sobre a importância do estudo, informações e independência da mulher que dança.

 Nada é mais triste do que encontrar alguém que você admira no palco e perceber que é “vazia” por dentro. Conhecimento nunca é demais. E isso não significa cursos caros ou uma infinidade de especializações.

 Sabemos que não é tão fácil viver só de dança no nosso país; podemos então concluir que ficar somente dançando não nos levará muito longe. Mesmo que você determine montar um negócio como uma escola, por exemplo, será necessário ter noções de administração, conhecer a parte financeira, marketing, entre outras áreas.

 Outro ponto é não tornar-se alguém que somente consegue falar de um assunto apenas. Por isso ler é fundamental. A leitura nos manterá sempre ativos em qualquer situação.

 Uma bailarina que pretende permanecer no mercado por mais tempo, precisa manter-se bem informada. É essencial que entenda a ligação entre sua área e as demais, principalmente no que se refere às relações humanas.

 O importante aqui é perceber que não se pode ficar parada. Minha professora de português, no ginásio, já dizia: “Mente vazia é oficina do que não presta.”

 4-       Quais são as bailarinas que você admira e quais as que inspiram o seu atual trabalho.

  Admiro muitas bailarinas e cada uma delas me inspira de forma diferente. Em cada fase da minha carreira uma tinha a minha atenção em especial. As bailarinas egípcias antigas possuíam “um algo a mais” que muitas estrelas atuais não têm.

  Costumo dizer que o nosso estudo de dança acaba virando uma “colcha de retalhos”, pois a inspiração vem de diferentes lugares, os braços de uma bailarina, a expressão de outra, os desenhos e movimentos de uma terceira, e por aí vai.

  Falar de uma bailarina específica muitas vezes nos dá a sensação de que estamos esquecendo alguém especial. Para não cometer este erro, permita-me omitir nomes específicos. Inspiração e admiração são realmente fatores muito subjetivos.

  5-       Você tem alguns artigos- muito bons- sobre a dança em diferentes contextos. Pelo quadro de horários, vejo que suas aulas na Casa de Chá têm grande procura. Conte um pouco sobre a ‘Débora professora’, seu estilo, sua didática, o que acha importante no ensino da dança.

  A Débora professora não é muito diferente da que você encontra no café para um bate-papo. Procuro deixar todo mundo a vontade nas aulas, principalmente se é seu primeiro contato com a dança. As correções acontecem sem sufocar quem está iniciando. Tudo precisa ser “naturalmente” apreendido. E os resultados têm sido satisfatórios.

  Minha didática atual traz a bagagem das aulas de clássico, acrescentando outras formas de alongamento e warm up (aquecimento). Gosto de trabalhar movimentos isolados e depois lançá-los em sequências, aproveitando para exercitar memória, concentração e coordenação motora.

  Vejo-me em sala como uma facilitadora e essa palavra expressa exatamente o que todas nós, professoras, devemos ser. Fico sempre imaginando novas formas de ensinar um mesmo movimento, porque o canal de percepção de cada aluna é diferente. E isso não torna alguém mais inteligente ou não, essa diferença é simplesmente na maneira que o “botãozinho da memória” é acionado quando estamos aprendendo algo.

  No ensino da dança é importante não ser uma ilha, não se fechar e achar que o mundo parou. Quando você se propõe a ensinar, está recebendo a responsabilidade de atualizar os conhecimentos que passa adiante.

Também é fundamental não ter pressa, respeitar o tempo do seu próprio aprendizado para depois lançar-se como professora.  

  6-       Atualmente há uma gama imensa de fusões e variedades na Dança do Ventre. O que pensa sobre isso? Acha que o caráter ‘tradicional’ da Dança do Ventre tem se perdido em meio a tantas novidades e adaptações?

  A dança evolui e vai continuar sofrendo influências de todos os tipos. Precisamos apenas ter bom senso no meio desse processo todo.

Acho válido o uso da criatividade para tornar a dança ainda mais rica, mas existem alguns limites para isso.

O importante é que a dança do ventre não perca sua essência na mistura com tantas outras. Eu costumo separar “dança do ventre” de “performance”:  na primeira vemos a dança tradicional mesmo que sofra uma leve influência, na segunda você não consegue distinguir quem está influenciando quem.

Algumas pessoas estão construindo trabalhos dignos de apreciação, agregando fusões em sua dança e nos presenteando com verdadeiros shows. Mas infelizmente ainda existem aquelas que não pesquisaram muito, antes consolidar a “mistura”, no final não entendemos seus movimentos e o brilho da dança se esmaece.

  7-       Existe alguma dica que possa ser transmitida por escrito, em relação a soltar o quadril, ‘amolecer’ os braços – geralmente a parte mais difícil para iniciantes – e leitura musical? Compartilhe conosco.

Dicas por escrito são um tanto complicadas...rs..rs... Existem exercícios para soltar o quadril, mas precisaríamos estar próximas para mostrar como se faz.

Os braços são a moldura do corpo; se não estiverem belos, podem danificar todo o resto da pintura. Para estes existem algumas brincadeiras que ajudam bastante: coloque uma linda pulseira no seu braço, daquelas que brilham e tente observar como ela reage ao seu movimento; você vai querer levantar, baixar, balançar, fazer círculos com o braço, e aos pouco você vai perceber que está fazendo uma infinidade de movimentos sem pensar muito, de forma livre e natural. Com isso seus braços vão se soltando. Mais tarde vem a parte técnica, onde você irá trabalhar a simetria dos braços.

Quando se é iniciante, tudo parece complicado. Primeiro tenha em mente que até uma guerra é vencida, de batalha em batalha. Então, vamos aos poucos; uma vitória de cada vez.

A leitura musical não é tão simples, porque mexe com ritmo, musicalidade e nem sempre somos natos nesses quesitos. Mais uma vez, serão válidos muitos treinos. Exercite os ouvidos com a música árabe. Dê preferência para as músicas mais clássicas, já que a quantidade de instrumentos é sempre maior. Perceba como a música se modifica o tempo inteiro, que existem breaks e retomadas bastante interessantes que possibilitam criatividade extrema. Uma das riquezas da música árabe é que ela não é linear. O fato de ela modificar-se muitas e muitas vezes durante o seu percurso lhe permite executar apresentações que podem se tornar verdadeiras obras de arte.

  8-       Quais estilos musicais você prefere dançar?

  Desde que comecei me inclinei mais às clássicas por influência do ballet. Violinos, cellos e flautas me inspiram. Confesso que sinto falta do piano quando danço. Instrumentos de cordas e sopro sempre me conduziam para um outro plano. Por isso, minhas primeiras músicas árabes foram clássicas, preferencialmente com um grande número de instrumentos em cena.

Mais tarde comecei a ouvir as moderninhas e os estudos foram exercitando meus ouvidos para as músicas folclóricas também. Como disse anteriormente, precisamos nos alimentar de informações diversas.

Na Khan el Khalili como a dança é sempre de improviso, precisamos estar preparadas para literalmente “dançar conforme a música”. Por isso o estudo é indispensável.  

9-       Conte um pouquinho sobre seu dia-a-dia fora do âmbito de trabalho: o que gosta de fazer, ler, lazer, etc.

  Procuro sempre acordar de bom humor. Acredite, tem exercício para isso!...rs..rs

Tenho uma gostosa rotina. Gosto de um bom café da manhã (aliás, sou viciada em café). Quando estou ativa (às vezes paro um pouco por ordens médicas): pratico exercícios, faço uma aula onde misturo yoga e pilates, às vezes acrescento uma “barrinha” de ballet. Estudo vídeos de shows e didáticos. Separo algumas horas para planejar aulas e preparar sequências.

Vou para a Casa de Chá e junto com o Jorge, organizo a parte administrativa. Elaboração de novos processos, reuniões de planejamento, preparação de treinamentos, etc. Enfim, rotinas de uma empresa.

Amo ler, desde pequena. Confesso que sempre gostei mais de livros que bonecas. Não conseguia entender a aplicabilidade que elas tinham. Livros me ensinavam muito, e ainda me ensinam. Leio romances, biografias, ficção, psicologia, antropologia, história, administração, filosofia, e entre outros ramos. Brinco com minhas amigas dizendo que leio até bula de remédio. E o pior, é que leio mesmo. Entre meus autores preferidos estão: Dale Carnegie, Peter Drucker, Napoleon Hill e Stephen Covey. Tenho o hábito de ler em média três a quatro livros ao mesmo tempo.

Além da leitura, sou amante de cinema e teatro. Em nossa casa, permitimos nos deleitar horas e horas com filmes clássicos (verdadeiras preciosidades), desde comédias do tipo “sessão da tarde”, dramalhões e aventuras fascinantes de piratas, índios e descobertas.  Adoro, também, reservar algum momento no meu dia para escrever ou corrigir artigos. Palavras cruzadas é um vício maravilhoso.

Talvez para muita gente eu não tenha uma rotina tão interessante assim, mas eu procuro transformar cada dia da minha vida em uma oportunidade de crescimento para minha alma. E sempre agradeço a Deus (todos os dias) por isso.

  10-   O que você pensa sobre as maneiras de divulgação de shows e imagens que a maioria das bailarinas hoje em dia utiliza? Sei que você, assim como eu, nem Orkut tem. Há maneiras e maneiras de divulgar um trabalho? O marketing pessoal também é importante para bailarinas?

  O marketing pessoal é indispensável para qualquer bailarina.

  Não se consegue nada sem propaganda. Todavia, precisamos ter cautela quanto aos meios de fazê-la. Fotos e sites devem ser feitos por profissionais específicos. Nada de tentar baratear as coisas, elas acabam sempre saindo mais caras quando feitas assim.

  Cuidar do visual já é uma ótima propaganda. Não precisamos de exageros nas roupas para chamar atenção. Mas o que falta sempre é o efeito multiplicador da imagem: este é o “pulo do gato”.

  O Orkut é um meio de criar novas redes de relacionamentos e uma fonte de divulgação de imagem. Cabe a cada um decidir até onde é rentável esse tipo de exposição. Não pretendo criar um perfil, porque separo sempre minha vida particular da vida profissional. Percebi que aproveito melhor os momentos com a minha família, longe de olhares curiosos. Não precisamos de exibições desnecessárias para nos sentir felizes.

  Para quem não entende nada sobre marketing, a dica é procurar um curso ou alguém da área para gerenciar sua imagem. A escolha da foto para o cartão de visita é tão importante quanto a roupa que você vai usar em sua apresentação. Não economize energia quanto a isso. Busque informações.  

Se você não souber como divulgar o seu trabalho ou como preparar seu marketing pessoal, dificilmente o sucesso baterá à sua porta.

  11-   Em 2001 você entrou para o rol das grandes bailarinas da Casa de Chá. Hoje, sete anos depois, além de esposa de Jorge, você também dirige a casa. Poderia falar sobre essa virada em sua vida e de como analisa esses acontecimentos?

  Tudo aconteceu de forma inesperada. Quando iniciei dança do ventre eu trabalhava em uma companhia de dança, era assistente de coreografia, ensaiadora e coordenava os elencos dos ballets e óperas que estavam sendo montados. Também dava aulas de dança de salão, mais especificamente tango, salsa, bolero e rumba. Na época da Pré-seleção eu estava em meio a uma tournée pelo país. Só pra ter uma idéia: estava no Rio a trabalho, fui ao Maranhão passar dois dias, segui para São Paulo onde me apresentei para a Banca e logo depois já estava em Brasília. Quando recebi a notícia que tinha passado na Banca, estava em Londrina com um grupo de coro e ballet. Minha vida sempre foi agitada assim...rs..rs

  Depois que passei em 2001, fui convidada para estagiar na casa e participar dos vídeos. Meu contato na Khan el Khalili era Fabiana que trabalhava com as escalas e todos os procedimentos com bailarinas.

  No final de 2002 parei de dançar. Submeti-me a uma nova cirurgia e isso me tirou um pouco as forças para retornar profissionalmente. Continuei trabalhando com a dança (ballet), mas apenas dava aulas de dança do ventre; já não dançava mais. Tentei parar definitivamente. Exclui emails, apaguei telefones da minha agenda e parei de acessar o site. Lembro que enviei email relatando que estava abandonando a dança. Pra você ver o quanto o mundo gira!

  Fiquei bastante tempo afastada. De 2002 até 2007 não tive mais contato com ninguém na Khan el Khalili.

O retorno aconteceu por causa das minhas alunas, e por insistência delas aceitei retomar as aulas no Maranhão. Nunca gostei de deixar nada pela metade, então voltei a estudar para que elas tivessem informações corretas da dança; mesmo assim não me apresentava ao público. No final de 2007, resolvi que voltaria a dançar e então procurei a Casa de Chá. Muita coisa já havia mudado desde que saí.

O Jorge veio como presente de Papai Noel. Foi um reencontro de almas, já que imagino que fomos cúmplices em outras vidas. Somos parte um do outro, não temos dúvidas disso. Nossos pensamentos são parecidos até na verbalização das idéias. É um presente que agradeço diariamente a DEUS.

  Débora, queria agradecer pela entrevista e parabenizá-la, mais uma vez, pela humildade e simpatia com que você sempre recebe a todas as bailarinas e pessoas que freqüentam a Casa. Com certeza, quem passar por lá, ou tiver a oportunidade de fazer os cursos do Habib, vai poder conferir, assim como eu vi pessoalmente, o quanto você é simples, sincera e afável. Desejo sucesso! Utilize este espaço para falar sobre o que quiser. Obrigada!

  Eu é que agradeço Luciana, pelo seu carinho, pela sua forma gentil de usar as palavras e pela divulgação que você faz da nossa arte.

  Abraços sinceros, Débora Sabongi

Por Luciana Arruda

Fotos: do site www.khanelkhalili.com.br

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