AZIZA MOR SAID

 

1-      Aziza não vejo como iniciar a entrevista sem pedir que você tente resumir sua trajetória de sucesso, de bailarina no Tocantins até chegar a São Paulo, professora da Shangri-la House. Uau!

 Interessante expor que o que me motivou a iniciar meus estudos foi a possibilidade de aprender a me mover com graciosidade.

Tudo começou quando vi uma apresentação de Dança do Ventre pela televisão, programa da Hebe, isso foi em 1994. A partir daí decidi que iria aprender alguns passos daquela dança, eu morava em Araguaína e por lá não havia nenhuma professora desse estilo de dança, então escrevi para revista Boa Forma e pedi informações sobre vídeos didáticos disponíveis no mercado, obtive dois nomes: Lulu Sabongi em São Paulo e Regina Ferrari no Rio de Janeiro.

Montei uma sala de estudos em minha casa, com espelhos, televisão, vídeo e aparelho de som e comecei a estudar todos os dias os dois vídeos.

Permaneci estudando sozinha por um ano, depois disso tive o contato com uma bailarina Goiana, conhecida hoje por Monah Souad, ela era mais experiente que eu e me deu várias dicas, ficamos grandes amigas. Juntas começamos a viajar para São Paulo para estudar.

Tive inúmeras aulas particulares com bailarinas da Khan El Khalili, principalmente com  Kareema, Lulu, Soraia e Nájua.

Anotava e praticava tudo que tinha sido passado em aula, ficava longe por três ou quatro meses e viajava novamente, sempre recebendo retorno, sempre dando continuidade, perdendo e readiquirindo paciência comigo mesma, desistindo e insistindo alternadamente...

Em 1999 com a primeira Pré-Seleção eu me tornei bailarina da Khan El Khalili, vieram as participações nos vídeos de Lulu Sabongi,  grande impulso para que meu trabalho fosse conhecido.

Em 2004 muitas mudanças ocorreram em minha vida pessoal e contribuíram para que eu resolvesse passar por uma Universidade novamente, foi uma reviravolta nos meus conceitos e padrões, experiência maravilhosa !!

Como estava morando aqui, passei a dançar regularmente no Khan El Khalili a convite de Jorge Sabongi e a integrar  o corpo docente da escola Shangrilá House a convite de Lulu Sabongi.

Terminei o curso de Bacharelado e Licenciatura em Dança no final do ano passado.

 2-      Em seu site você conta, emocionada, de sua admiração por Lulu (a qual compartilho) conte-nos como é estar próxima da Lulu professora e pessoa. O que você sente ao ver que agora, você é inspiração para muitas pessoas, como Lulu foi para você? Fale-nos da relação com fãs.

Lulu é uma pessoa especial, tem uma paixão pela dança que contagia quem está por perto, tive a sorte de tê-la como professora, orientadora, sempre muito séria e carinhosa, sempre incentivando e oferecendo oportunidades, abrindo portas... Engraçado que hoje vivendo em São Paulo nossa relação de proximidade é menor do que quando eu morava em Araguaína, é que quando eu vinha de lá, tinha sempre abrigo em sua casa e estava sempre totalmente disponível para estudar, para estar perto.

Ser inspiração é uma forma de reconhecimento pelo trabalho feito ao longo dos anos é também ter que ser responsável e cuidadosa.

É maravilhoso receber o carinho das pessoas, muitas vezes me sinto meio encabulada com a intensidade das demonstrações de afeto, mas nesses instantes trago à memória a lembrança de minhas atitudes frente às pessoas que admiro e aí fica tudo bem, a timidez vai embora. Sou uma pessoa feliz, adoro o que faço, adoro estar cercada por pessoas que também amam a dança, servir de inspiração é mais um presente é a certeza que o que eu faço com amor é recebido, aceito.

3-      Sua dança é delicada, porém marcante. Em seus anos de prática, há alguma dica essencial que você possa compartilhar sobre como encontrar nosso estilo pessoal na dança?

 Nossa !!!! Preciso compartilhar uma história que a maioria de minhas alunas conhecem.

Comecei a estudar em 1995 e em 1996 eu queria saber qual o meu estilo e fui então perguntar para Kareema (uma de minhas professoras na época), mas eu já sabia qual resposta eu queria ouvir, qual estilo eu queria ter, eu queria ter um estilo sensual, rsrsrs

Fiquei decepcionada quando Kareema disse que estilo é desenvolvido ao longo do tempo, mas que pelo meu jeito ela arriscaria dizer que eu estava mais para camponesa, menina...

Demorei aceitar minhas características mais marcantes, depois que aceitei a menina, comecei a encontrar a mulher...

Essa história de estilo expressivo me levou até para o consultório terapêutico, o que foi ótimo ! Antes, meu interesse era reproduzir os movimentos com a máxima exatidão possível. Eu não sabia que a dança poderia ser uma poderosa ferramenta de auto-conhecimento e de transformação pessoal e social.

O estilo pessoal está presente no dia a dia, ele já existe, tem haver com o jeito de falar, com o tom de voz, percepção do mundo, interesses, crenças, e por aí afora,  porém, deve ser aceito e trabalhado, mudar algo na sua dança é mudar algo no seu jeito de se expressar, é complexo. Durante meus estudos na Universidade de Dança entrei em contato com o que chamamos de Abordagens Somáticas aplicadas à Dança, essas abordagens potencializam as descobertas relacionadas ao próprio corpo, as sensações e as emoções que emergem do mesmo, dar ouvidos à essas impressões é trabalhar a própria expressividade de forma única, é encontrar o estilo pessoal, que na minha opinião, não é definitivo, está sempre em movimento, é dinâmico.  

 4-      Conte-nos sobre suas viagens ao exterior e quais as maiores lições de viajar em busca do aprendizado.

 As viagens foram e são especiais, sou uma pessoa de sorte, sempre encontrei as pessoas certas. Quando eu morava no Tocantins, São Paulo era exterior pra mim.

Alguns aprendizados proporcionados pelas viagens:

·        Estar aberta pra poder receber. Abandonar por alguns instantes o que pensa que sabe e ouvir, experimentar a proposta do outro. Melhor forma para sair enriquecida da experiência.

·        Se houver oportunidade, fazer também as aulas de professores “desconhecidos”. Tive experiências maravilhosas agindo assim.

·        Desenvolver um pensamento crítico saudável para poder escolher o que fará e o que não fará parte da sua dança a partir dos encontros com os professores. Tentar inserir tudo é uma loucura, os conhecimentos são assimilados cada um à seu tempo, sem contar o que assimilamos inconscientemente... mas isso é outro departamento.

·        Ter PACIÊNCIA consigo mesmo, quando aparentemente não estamos aprendendo. Sair em busca de aprendizado é encontrá-lo.

·        Descansar, dormir, alimentar-se o suficiente para poder estar bem disposta nos estudos.

5-      Aziza, lembro-me que encontrei você no workshop do Yoursery, há alguns anos... vi que você é tipo mignon e tem um corpinho delineado. Qual a dica para manter a forma e como você encontra resistência para dançar os solos de mais de sete minutos.

 Além de dançar gosto também de praticar outras atividades, já passei pela capoeira regional, pela natação, gosto de correr, de andar de bike, de musculação, outros tipos de dança.

Atualmente eu treino musculação, corrida e bike, sempre alongando depois. Pratico Power yoga e dança contemporânea.

Acredito que esse conjunto de fatores, aliado a uma boa alimentação deixam a pessoa com maior disposição e resistência para qualquer coisa, inclusive dançar por mais de sete minutos. Minha dica é: cuide do seu corpo e além da dança, procure uma atividade na qual você tenha prazer e ao mesmo tempo trabalhe o fortalecimento e a flexibilidade dele. Sempre com critério, sem exageros e com o auxílio de bons profissionais.

6-      Como professora, o que pensa sobre a diversidade física das alunas e das diferentes relações entre grupos de alunas, como se sente no ambiente da sala de aula?

 Viva a diversidade !!! As pessoas são únicas apesar de todos sermos constituídos de carne e ossos. Olho para minhas alunas e vejo o ser humano, ensino técnica, mas também procuro fazer com que experimentem outros caminhos dentro da técnica inicial. Expressar o que se tem “dentro” através de elementos presentes na dança: peso, fluência, tempo e espaço. Também através da palavra, da reflexão.

Procuro sempre estimular os encontros, as trocas, mesclar os grupos.

Dar aula é essencial pra mim. É onde busco estímulo para buscar mais conhecimento, é onde aprendo, recebo carinho. Sei que é um ambiente de troca, mas tenho sempre a impressão que recebo mais do que dou.

7-      Você tem um estilo preferido de dançar? Acha importante que a bailarina ‘passeie’ por diversos estilos?

Quando comecei adorava dançar solo de percussão, foi meu preferido por muito tempo. Adoro as músicas chamadas clássicas, recheadas de ritmos diferentes, instrumentos e possibilidades mil.

 As danças típicas regionais, chamadas folclore, nunca foram uma preferência, gosto de estudar, de dançar. Sinto que neste momento estou namorando esse universo, quem sabe na próxima entrevista este seja meu estilo preferido.

Gosto da diversidade, por isso penso ser válido passear por diversos estilos,  adicionando e nunca subtraindo.

8-      Cite, se possível, cinco bailarinas (os) que te inspiram –e os porquês.

 ·        Lulu Sabongi: Pelo amor e respeito à dança. Pela intensidade de emoções. Pelos giros e véus coloridos.

·        Soraia Zayed: Pela alegria, malícia, ginga, shimmies enlouquecedores, leitura musical, braços sinuosos, ombros, caras e bocas.

·        Dina: Pela sensualidade, tranqüilidade e economia nos deslocamentos, mini acentos de quadril, força muscular, leitura musical.

·        Fifi Abdou: Pelo domínio de público, quadril soltinho e enorme, pelo jeito despojado, pela força e confiança que emanam dela.

·        Nelly: Pela leitura musical, pela maciez presente nos movimentos, braços e mãos, riqueza coreográfica.

 Tantas outras, tantas outras... Monah Said, Naima Akef, Najua Fouad, Randa Kamel... o que escrevi acima são impressões resumidas, poderia conversar horas sobre as qualidades de cada uma.

 9-      Aziza, seus trajes são impecáveis e percebo que é possível reconhecer uma ‘marca’ sua entre rendas e acessórios. Como é para você a relação estética que a bailarina tem na dança, em relação a traje, visual e maquiagem, qual importância você dá a isso tudo.

Obrigada pelo “trajes impecáveis”, gosto de roupas bem feitas, com acabamento, materiais de boa qualidade e de detalhes, acho que esse último item, os detalhes, poderíamos dizer ser uma marca. Gosto de acessórios que fazem a vez de bijoux. Sou de fases, já gostei e usei muitas coisas diferentes (muita franja, combinações de duas ou mais cores, única cor, tecidos esvoaçantes, saias justas, rendas, transparências, tecidos estampados, roupa sem franja, lantejoulas, strass, pedras...).

Gosto de ter sempre roupas diferentes pra poder ter opções para variar segundo meu humor ou segundo a exigência da ocasião.

É importante o cuidado com as roupas pois elas são também nosso cartão de visitas. As bijouterias, a maquiagem, os cabelos, unhas... tudo é importante quando se dança profissionalmente, a bailarina deve aprender a valorizar os pontos fortes e disfarçar os pontos fracos, é importante se sentir bem com o visual pra poder, enquanto estiver dançando esquecer de tudo isso e só valorizar o que realmente é essencial: a arte.

  10-  Queria agradecer pela entrevista, e ressaltar aqui, publicamente, o quanto gosto de sua dança. Por favor utilize esse espaço para falar sobre o que desejar. Obrigada Aziza!

Obrigada você pela oportunidade de dividir um pouco minhas impressões. Escrever não é  um ponto forte, penso coisas demais ao mesmo tempo. É difícil organizar meu raciocínio, espero que o que foi escrito possa reverberar de forma positiva. Gostaria muito de receber  feedback, estarei disponível no e-mail: azizamor@hotmail.com

www.azizamorsaid.com

 

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