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SAMYA JU
1- Samya, você fez o caminho inverso da maioria das bailarinas do interior de São Paulo:enquanto algumas almejam o grande centro, você foi,estudou, fez parte da Casa de Chá, e há alguns anos, abandonou a capital e voltou para o interior, Piracicaba. Conte-nos como foi esse processo, que ainda inclui duas viagens ao Egito e se está satisfeita em voltar as suas origens. Pois é, a casa de chá foi um acidente lindo na minha vida. Nunca pensei que faria parte do grupo de dança da KK. Fiz a pré-seleção (1999) para obter uma avaliação do meu desenvolvimento na dança, pela pura confiança no trabalho desenvolvido alí. Quando fui morar em São Paulo eu tinha passado no vestibular e estava cursando a faculdade. Passei a fazer aulas na casa de chá enfim!- depois de tanto tempo aprendendo dança em vídeo e “caçando professora” no interior - aprender a “dançar direito”, como eu dizia (hahahaha) era quase um sonho. Mas daí me convidaram pra estagiar e eu tive a oportunidade de realmente aprender e sou muito, muito grata por isso. A USP teve absurdas greves de 9 meses, 7 meses, nos anos de 2003, 2004, acabei virando bailarina full time sem perceber. Depois de 5 anos, por melhor que esteja a vida, é sempre bom continuar caminhando. Percebi que estava muito presa, apegada àquela pequena vida envolta do meu apê, das aulas de dança, dos shows, enfim. Era bom, muito bom – mas eu não estava feliz. Não havia muitas possibilidades de crescimento no meu caso. Me tornei uma bailarina muito engessada na minha opinião. Aí larguei tudo e fiz a primeira viagem pro Egito. Quando voltei bateu o desespero, não foi fácil. Mas enfim, sobrevivi. Não sei se estou de volta às origens, mas me sinto novinha em folha . . . 2- A questão estética na dança quase sempre permeia os assuntos das bailarinas em geral. O que você pensa sobre o corpo esguio e magro como obrigatoriedade? Não vejo como obrigatoriedade para a dança, mas para performing artists do mercado de entretenimento no geral - há uma preferência por corpos malhados (que geralmente o público consagra), com certos atributos físicos. Para algumas modalidades de show – o formato evidencia aquilo que é apresentado. Se o que o profissional busca é apenas um impacto instantâneo . . . voilà – the job is done. A platéia está satisfeita, pegue o cachê e vá para casa. Depois de um tempo, qualquer artista deseja mais do que isso. Outra face dos cuidados com o corpo: a real preocupação de um bom profissional deveria ser estar preparado para o pique de trabalho. No caso da bailarina de Dança do Ventre – é ideal manter uma atividade extra de fortalecimento muscular para prevenir lesões, além de um treino cardiovascular que não faz mal a ninguém. Cuidados básicos com alimentação, o mesmo que qualquer pessoa faz para manter o corpo funcionando bem. Isso garante um excelente controle da ansiedade e do stress (dupla evil do meio bellydance), principalmente para bailarinas que se dedicam à administração de suas próprias escolas. 3- Nos dê a dica para ter uma dança pessoal e elegante. Algumas pessoas confundem elegância com frieza. Enfim, o Brasil tá com a dança muito chata pro meu gosto. Ultimamente, além de não haver o toque “pessoal” andou rolando uma “frigidez” também. Vou definir meu conceito pra cada adjetivo para facilitar: pessoal – característica marcante da personalidade, no caso da Dança do Ventre é como um tempero especial de personalidade e carisma de cada bailarina. Quanto mais autêntica e auto-confiante, maiores são as chances de acerto. Infelizmente, sou obrigada a atentar para o fato de que não vejo estudantes muito preocupadas com isso. Muito menos as vejo auto-confiantes é uma pena. Parece que todas querem se mostrar inseguras, reclamando o tempo todo: “ah, Samya eu não consigo fazer o tremido igual o seu, meu quadril é travado olha.” Honestamente, muitas vezes já me peguei fazendo o mesmo e posso dizer: isso aí é um veneno. Sobre elegância: Estar em harmonia com você mesmo. Uma dica: pessoas afobadas, apressadas, tornam-se automaticamente desastradas e deselegantes. O mesmo é válido para os nervosos, raivosos e prontos pra briga. Acredito que uma pessoa consciente e tranquila age de maneira elegante: afetuosa, equilibrada e coerente com a situação. Na dança, na vida e por aí vai. Não existe uma série de movimentos pré-determinada.
4- Fale sobre suas duas viagens ao Egito, como estudo e turismo. Você concorda que toda bailarina de dança do ventre deveria viajar ao Egito? O método permite excelentes pesquisas. Só não estuda e absorve quem não quer. Além do quê, já diz o provérbio indiano que o ser integral conhece sem ir, realiza sem fazer e tal e coisa. Conheço bailarinas extremamente conscientes e excelentes pesquisadoras que nunca estiveram no Egito, nem em qualquer país árabe. Mas estudam e realmente mantém olhos, ouvidos e coração abertos. Conheço outras que viajam 2 vezes ao ano só pra fazer compras no Khan el Khalili e bater ponto no festival da Raqia Hassan. Cada um tem seu fetiche. Não vou julgar. Independentemente de qualquer coisa recomendo a qualquer ser humano que visite o Egito porque é bom demais! Nada do que vocês ouviram, nem viram na tv, nem é coisa de turista. Abandone suas expectativas e vá, misture-se, converse com as pessoas. Por falar nisso: deixe os xales e tranqueiras do mercado de lado. Areja que faz bem. 5- Cite as bailarinas importante para estudo, que você considera essencial para auxiliar no desempenho de todas nós. Primeiro: você mesma é a bailarina mais importante. Conheça você mesma como bailarina: sua técnica, seus pontos fortes, suas fragilidades, seus desejos e onde você quer chegar. Por que você dança? O que você tem a dizer? Em relação à cultura pop: estudem os vídeos da série The Great Unknown. Aquilo é uma riqueza a que só as gerações de árabes tiveram acesso. Vocês têm e não vêem. Aquilo é um compêndio de passos, combinações e até mesmo estilos que nunca foram decodificados. Leituras musicais que se perderam e “inovações” deliciosas que nem chegaram aqui. A vantagem é que aquelas dançarinas estão num período histórico que eu adoro, num cruzamento especial da dança com elementos étnicos e teatrais. Por último,assista qualquer coisa que te inspirar, aquela que te dá tesão mesmo. Não importa se é bellydancer ou não. Qualquer referência vale. 6- Samya, fale-nos sobre o seu dvd Deusas e Lendas. Ah, Deusas e Lendas é o espetáculo realizado pelo Studio Samya em 2009. Uma reunião dos melhores trabalhos das alunas e professoras da escola. Estou muito orgulhosa delas! 7- Utilize este espaço para falar sobre o que desejar. Muito obrigada pela entrevista e sucesso! Vou mandar beijos cheios de carinho pra todos e um agradecimento especial pra você, Lu. Espero que o pessoal curta. Adorei o convite :-D
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