LUCIANA ARRUDA
 

 

Entrevista feita por e-mail, pelas leitoras  Ana Beatriz Nogueira, de Manaus e Cintia Neves, do Rio de Janeiro, no periodo de 2008 e 2009.

 Como você entrou no mundo da dança?
Pelas mãos de meus pais. Minha mãe soube que iria abrir uma academia em nossa cidade e ela e meu pai me disseram: “Filha, vamos te dar um presente: você vai fazer Ballet.” Eu tinha seis anos de idade e ainda me lembro da tarde em que fui fazer a matrícula com minha mãe.

Você se considera uma pessoa feliz?
Me considero uma pessoa de sucesso, realizada. Mas há uma diferença enorme entre ‘ser feliz’ e ‘estar feliz’. Eu estou, com freqüência, feliz. Tenho um trabalho que amo, danço, tenho uma família especial, um marido incrível e muitos bons momentos. Mas não ‘sou feliz’. Para mim, estar feliz é possível, mas ‘ser feliz’ nesse mundo tão cheio de incoerências e tristezas é uma hipocrisia ou uma falta total de informação ou sensibilidade. Eu sofro muito pelas dores do mundo. Como ‘ser feliz’ em um mundo onde tantos ainda passam fome, onde animais são sacrificados dia a dia, onde crianças são violentadas e bandidos fazem atos cruéis?

Qual é o seu livro de cabeceira?
Atualmente, a biografia de Ray Charles. Mas o livro que realmente mudou minha vida e deixaria para sempre em minha cabeceira foi ‘Mulheres que Correm com os Lobos’ de Clarissa Pinkola Estes.

Quais bailarinas são referência para você?
Eu não sou uma pessoa de muitas “referências”...aprendi que Caetano estava certo quando disse: “De perto, todo mundo é normal” (acho que foi ele quem disse isso).  Mas eu tenho muito respeito por Mariane Nakao, que foi minha primeira professora de Ballet, eu a amo por isso, por ter me ensinado a dançar. Também respeito muito Lulu Sabongi, ela merece nosso respeito sempre, pois foi pioneira no ensino em ampla escala em nosso país, ela literalmente ‘deu a cara à tapa’ e lançou vídeos para estudo, os workshops de Dança do Ventre em várias cidades e ela tem uma entrega enquanto dança que arrepia qualquer um que já teve a chance de vê-la ao vivo. Pessoas podem ou não gostar dela, mas não podem negar que é devido a ela e ao seu tempo de carreira que várias transformações na Dança do Ventre aconteceram no Brasil. Também admiro Jade El Jabel por seu carisma e personalidade, e Dina, que é mais simples do que muitos imaginam. E Carlla Sillveira, que tem um estilo original, ela é especial.

Você tem medo de parar de dançar?
Isso não vai acontecer. Ainda que eu envelheça, adoeça ou fique inválida, sempre poderei dançar, mesmo que seja apenas em minha mente.

Como encara a velhice?
Um processo natural do nosso corpo. Um dia estarei velhinha, com pelancas e as tatoos desbotadas, mas muito ativa, dançando e criando! (risos)

Você escreve muitas dicas boas, parece ser uma pessoa muito doce e calma. Você tem segredos que não revela?
Nossa, que profundo! (risos).Não sou tudo isso nem de longe, imagina. Sou apenas uma garota tentando ser feliz e minha calma é tão ‘constante’ quanto o mar...(risos). Tenho que ralar muito ainda para ser uma pessoa boa e doce. Infelizmente. Tem uma frase do mestre em teatro, ‘Eugênio Borba’ em que ele diz algo assim: “Protege essa obscuridade dentro de ti. Essa obscuridade pode se transformar tanto numa força destrutiva, quanto numa força criadora.” Bem, eu trabalho com meu lado ‘secreto’ e obscuro de maneira que a força seja voltada para criar, sempre.

Qual o seu estilo musical favorito?
O bom e velho blues...mas sou eclética, vou de ópera a Korn.

Qual sua flor favorita?
Margarida, Rosa, mas rosa amarela, detesto rosas vermelhas.E Gérberas, são divinas.

Na sua opinião, quais os três maiores tesouros que o ser humano pode ter?
Saúde, consciência tranqüila e amigos leais.

 E como lida com as críticas?
Da mesma maneira que com os elogios. Não supervalorizo. Agradeço, sendo boa ou ruim, toda crítica nos faz pensar. Quando é construtiva, corro anotar tudo e fazer melhor numa próxima, quando é negativa e maldosa, dou uma checada na pessoa que me trouxe e logo reflito: “Será que essa pessoa que falou tanto mal, seria capaz de fazer igual ou melhor do que eu?” Geralmente não. Aí quando vejo que é por despeito, simplesmente ignoro.

 Qual foi a melhor história de amor que você já leu?
 Olha que engraçado, quando adolescente tudo que eu queria era viver um amor como o de Cathy e Heathcliff, de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’. Depois, mais adulta, me emociono mesmo é com o amor de Kathy e Almasy, de ‘O Paciente Ingles’, um dos meus livros favoritos.

 Acredita em amor eterno ou prefere a realidade do ‘eterno enquanto dure’?
O que é a eternidade? Quem dimensiona ou vivencia isso? Para mim, a eternidade está diretamente relacionada ao momento, você pode ou não eternizar um momento, depende da  intensidade e alegria que isso traz. Para mim, o amor sempre vai ser uma constante. O relacionamento pode acabar, como tudo na vida acaba, mas as lembranças, o sentimento, sempre ficarão.

  Percebi que você é muito espontânea e não tem medo de julgamentos. Sempre foi assim ou também tem seus momentos de insegurança, como a maioria das mulheres?

 Pois é, essa espontaneidade é algo meu, acho que nasci assim, ‘transparente’ demais, até.  Nunca tive medo de julgamentos, mas confesso que já fui muito afetada por eles, não é fácil ser julgada. Só que sempre dei a volta por cima pensando nisso: eu sei quem sou, de onde vim e para onde vou...o resto, é limitação dos outros. Para mim, quem julga, é movido sempre pela limitação de seus valores e idéias e tem dificuldade em lidar com o diferente. Agora quanto à insegurança, para mim ela não é só algo que pertence ‘a maioria das mulheres’, mas é algo do ser humano. A partir do momento em que estamos ‘sob o olhar do outro’ sempre bate uma insegurança, normal. Eu aprendi a lidar com isso trabalhando minhas falhas, sempre observei onde me sentia enfraquecida e aí trabalho para transformar pontos fracos em fortes, isso traz confiança. Mas vou contar aqui para vocês: durante muuuito, mas muito tempo, me sentia o verdadeiro ‘patinho feio’. Ufa, agora virei cisne, ainda bem!..rs.. 

Você é vegetariana. Como é viver em um mundo carnívoro?

Preciso antes, contar que sou vegetariana há apenas dois anos, embora seja uma opção para a vida toda. Eu antes comia carne como a maioria e comia bem,viu?! Sou  o que costumam chamar de ‘bate forte’, ‘boa de garfo’..rs...adorava, principalmente, assados, picanha com alho e as famosas ‘tulipinhas’ nos churrascos, uau! Depois, com minhas leituras, os documentários que assisto, fui adquirindo informações sobre sofrimento animal, como funcionam os matadouros e processos de conservação de alimentos a base de carne, conseqüências ecológicas...enfim, percebi que não podia ter tanta informação e não agir. Comecei a pensar seriamente em modificar minha alimentação baseada nesses relatos, mas nunca começava, de fato. Até me casar e, junto com meu marido, começamos devagar a reestruturar nossos hábitos. O que fez com que realmente parássemos de comer qualquer tipo de carne, foi um fato muito especial, que aconteceu conosco e que abriu meus olhos, de vez. Esse fato eu prefiro não contar aqui, mas posso dizer que um dia, talvez, mais pessoas saibam, está tudo escrito em um livro, que acabei de escrever, aliás, é até uma afronta chamar de ‘livro’,rs, mas enfim, é meu primeiro teste. Quem sabe um dia alguém resolve publicar...rs...mas, não posso ser hipócrita e condenar quem come carne, algo que fiz por anos a fio. Também não levanto nenhuma bandeira. Cada uma sabe de si e cada um irá arcar com as conseqüências morais, sociais e espirituais do hábito de ainda matar para comer. Qualquer pessoa bem informada sabe que, na verdade, não precisamos da carne para sobreviver. Quando eu e meu marido optamos por essa alimentação, muitas pessoas disseram que ficaríamos doentes e etc. Pelo contrário. Nosso corpo funciona melhor, nunca me senti tão bem disposta. O que importa é convicção e tempero!

Você é Psicóloga, Bailarina. Como concilia duas profissões tão diferentes? Já pensou em optar apenas por uma destas?

Para mim é muito clara a diferença entre palco e consultório/empresa. Não me considero uma ‘profissional’ em dança, embora esteja a caminho disso, estudando muito. A profissão de Psicóloga é uma opção, uma paixão e um bem financeiro que me é necessário por enquanto. Eu já trabalhei apenas como Bailarina por um periodo de um ano, até tentei abandonar a Psicologia para ter mais tempo de me dedicar à dança, mas de alguma maneira as oportunidades sempre aparecem e pessoas solicitam meu trabalho como Psicóloga. Então, concilio ambas.

O que pensa de bailarinas que exploram seus corpos?

Em que sentido? De se expor? Dos trajes? Porque se for em relação a programas e coisas sexuais, aí para mim não é bailarina,  o nome é outro... quanto a traje e exposição, jamais vi uma bailarina que se portasse com elegância receber qualquer coisa desagradável em troca. Nós bailarinas é que devemos colocar limites e demonstrar respeito pela arte. Isso vem em dobro para nós.

   O fato de ser casada com um músico ajudou em sua carreira de bailarina?

Graças à dança, eu conheci Felipe, meu marido. Fui procurá-lo para tocar em nosso espetáculo (ele é baterista) e desde então, nunca mais consegui ficar longe dele. Penso que toda bailarina é um ‘ser musical’, na verdade o som e o gesto caminham juntos. Antes de dançar, eu já era fascinada por música, desde muito cedo ouvia os vinis de Jazz do meu pai, e artistas como Ray Charles,Alceu Valença e Nat King Cole. Com o ballet, veio minha paixão pela música erudita e depois, na adolescência e na faculdade, vi, encantada, um vasto universo musical a ser decifrado.

Ao conhecer Felipe, primeiro senti a admiração pelo grande músico que ele é, confesso que me apaixonei pelo seu talento como baterista e conhecedor da música. Depois, com a convivência, aprendemos a nos admirar, nos identificamos em nossa paixão pela Arte em todas as suas nuances e o fato decisivo para nossa união foi o respeito com que meu marido sempre tratou a Arte da Dança.

Posso dizer com certeza, que depois que o conheci aprendi ainda mais sobre esse mundo musical e minha maneira de ouvir e ‘destrinchar’ a música árabe melhorou muito. Não só em relação a musica árabe, mas Felipe me ensina muito, o tempo todo. E Felipe é meu maior crítico e incentivador, ele corrige, dá dicas e entende como ninguém essa minha alma de pássaro, livre, leve, intensa. Por ele, me tornei uma pessoa melhor não só na dança, mas na vida.

Você tem uma beleza singular e suas fotos são lindas. A beleza abre portas ou atrapalha?

Vou abrir um parêntese aqui. Primeiro, obrigada pela ‘beleza singular’. As fotos lindas, são mérito do meu primo e também fotógrafo Henrique Perama. Não saberia falar sobre beleza, porque como disse no inicio da entrevista, até pouco tempo, me sentia um patinho feio. Na verdade, costumo dizer que só me sinto bonita em dois momentos: quando estou dançando e quando estou nos braços do meu marido. Se alguém disser que me ouviu dizer que ‘sou bonita’, esse alguém mente. Jamais falei ou tive essa percepção de ‘ser bonita’ e isso é algo muito pessoal.

Eu nunca soube lidar com o conceito de beleza, pois cresci num universo em que minha referência feminina, que é minha mãe, não costumava me elogiar ou demonstrar afeto. Isso foi algo de mãe para filha, envolveu tradições e dinâmicas familiares, foi superado, mas de alguma maneira mexeu muito comigo.

 Isso foi  muito trabalhado em mim depois de adulta, a aceitação, a compreensão do próprio corpo. A dança me ajudou muito nisso. Muitas pessoas podem não acreditar, mas eu não sei ver ‘beleza’ em mim.Foi algo que, digamos, não foi treinado, estimulado ou desenvolvido em minha mente.

Por isso fico tímida e agradecida quando alguém me elogia, mas confesso que sempre me sinto sem saber como agir.

 Agora, o que consigo ver com facilidade é o carisma, isso é algo de família mesmo. Eu posso estar vestida com moleton, no meio da multidão e não importa o que aconteça, as pessoas vão me olhar e ‘reparar’ em mim. É algo impressionante. Eu sei que tenho um ‘que’ no jeito de andar ou me portar que faz com que isso aconteça, mas não saberia explicar o que é.

 Já sofri muito com isso, porque sempre fui tímida, mas agora já me acostumei e até cumprimento as pessoas que me olham tanto... também já aprendi a lidar com ciúmes e crises de baixa estima que ‘amigas’ desenvolvem ao meu lado, sabe, aquela coisa de ciúme do namorado, ou não entender o afeto direcionado a um amigo, ou lidar com o fato de eu estar no palco, em evidência e etc...

Eu lido com tudo isso com a serenidade que tenho por saber que, com o passar dos anos, meu corpo vai envelhecer, minha energia ficará mais contida e tudo o que vai interessar, sempre, é minha mente. Sobre beleza atrapalhar, não sei, nem sobre abrir portas, acho que isso acontece com mulheres que realmente são bonitas ou trabalham com imagem, não é o meu caso. Sou apenas uma garota comum, com um certo ‘charme’, tentando ser feliz.

   Deixe uma mensagem e cite um poema que goste.

Eu adoro poemas e poesias, meus autores favoritos são o Fernando Pessoa (e todos os seus ‘personagens’) e Olavo Bilac. Vou citar dois poemas polêmicos, são desses que gosto! Leiam ‘A Alvorada do Amor’ de Olavo Bilac , e o meu favorito, que peguei pra mim, esse poema é meu! rs... é ‘Cântico Negro’ de José Régio. A mensagem, básico e prático: “Não faça para o outro o que não quer para você.” Luz para todos!


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