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LUCIANA
ARRUDA
Entrevista feita por e-mail, pelas leitoras Ana Beatriz Nogueira, de Manaus e Cintia Neves, do Rio de Janeiro, no periodo de 2008 e 2009.
Como
você entrou no mundo da dança?
Você se considera uma pessoa feliz?
Qual é o seu livro de cabeceira?
Como encara a velhice?
Você escreve muitas dicas boas, parece ser uma pessoa muito doce e
calma. Você tem segredos que não revela?
Qual o seu estilo musical favorito?
Qual sua flor favorita?
Na sua opinião, quais os três maiores tesouros que o ser humano pode
ter?
E como lida com as críticas?
Qual foi a melhor história de amor que você já leu?
Acredita em amor eterno ou prefere a realidade do ‘eterno enquanto
dure’? Percebi que você é muito espontânea e não tem medo de julgamentos. Sempre foi assim ou também tem seus momentos de insegurança, como a maioria das mulheres? Pois é, essa espontaneidade é algo meu, acho que nasci assim, ‘transparente’ demais, até. Nunca tive medo de julgamentos, mas confesso que já fui muito afetada por eles, não é fácil ser julgada. Só que sempre dei a volta por cima pensando nisso: eu sei quem sou, de onde vim e para onde vou...o resto, é limitação dos outros. Para mim, quem julga, é movido sempre pela limitação de seus valores e idéias e tem dificuldade em lidar com o diferente. Agora quanto à insegurança, para mim ela não é só algo que pertence ‘a maioria das mulheres’, mas é algo do ser humano. A partir do momento em que estamos ‘sob o olhar do outro’ sempre bate uma insegurança, normal. Eu aprendi a lidar com isso trabalhando minhas falhas, sempre observei onde me sentia enfraquecida e aí trabalho para transformar pontos fracos em fortes, isso traz confiança. Mas vou contar aqui para vocês: durante muuuito, mas muito tempo, me sentia o verdadeiro ‘patinho feio’. Ufa, agora virei cisne, ainda bem!..rs..
Você é vegetariana. Como é viver em um mundo carnívoro? Preciso antes, contar que sou vegetariana há apenas dois anos, embora seja uma opção para a vida toda. Eu antes comia carne como a maioria e comia bem,viu?! Sou o que costumam chamar de ‘bate forte’, ‘boa de garfo’..rs...adorava, principalmente, assados, picanha com alho e as famosas ‘tulipinhas’ nos churrascos, uau! Depois, com minhas leituras, os documentários que assisto, fui adquirindo informações sobre sofrimento animal, como funcionam os matadouros e processos de conservação de alimentos a base de carne, conseqüências ecológicas...enfim, percebi que não podia ter tanta informação e não agir. Comecei a pensar seriamente em modificar minha alimentação baseada nesses relatos, mas nunca começava, de fato. Até me casar e, junto com meu marido, começamos devagar a reestruturar nossos hábitos. O que fez com que realmente parássemos de comer qualquer tipo de carne, foi um fato muito especial, que aconteceu conosco e que abriu meus olhos, de vez. Esse fato eu prefiro não contar aqui, mas posso dizer que um dia, talvez, mais pessoas saibam, está tudo escrito em um livro, que acabei de escrever, aliás, é até uma afronta chamar de ‘livro’,rs, mas enfim, é meu primeiro teste. Quem sabe um dia alguém resolve publicar...rs...mas, não posso ser hipócrita e condenar quem come carne, algo que fiz por anos a fio. Também não levanto nenhuma bandeira. Cada uma sabe de si e cada um irá arcar com as conseqüências morais, sociais e espirituais do hábito de ainda matar para comer. Qualquer pessoa bem informada sabe que, na verdade, não precisamos da carne para sobreviver. Quando eu e meu marido optamos por essa alimentação, muitas pessoas disseram que ficaríamos doentes e etc. Pelo contrário. Nosso corpo funciona melhor, nunca me senti tão bem disposta. O que importa é convicção e tempero! Você é Psicóloga, Bailarina. Como concilia duas profissões tão diferentes? Já pensou em optar apenas por uma destas? Para mim é muito clara a diferença entre palco e consultório/empresa. Não me considero uma ‘profissional’ em dança, embora esteja a caminho disso, estudando muito. A profissão de Psicóloga é uma opção, uma paixão e um bem financeiro que me é necessário por enquanto. Eu já trabalhei apenas como Bailarina por um periodo de um ano, até tentei abandonar a Psicologia para ter mais tempo de me dedicar à dança, mas de alguma maneira as oportunidades sempre aparecem e pessoas solicitam meu trabalho como Psicóloga. Então, concilio ambas. O que pensa de bailarinas que exploram seus corpos? Em que sentido? De se expor? Dos trajes? Porque se for em relação a programas e coisas sexuais, aí para mim não é bailarina, o nome é outro... quanto a traje e exposição, jamais vi uma bailarina que se portasse com elegância receber qualquer coisa desagradável em troca. Nós bailarinas é que devemos colocar limites e demonstrar respeito pela arte. Isso vem em dobro para nós. O fato de ser casada com um músico ajudou em sua carreira de bailarina? Graças à dança, eu conheci Felipe, meu marido. Fui procurá-lo para tocar em nosso espetáculo (ele é baterista) e desde então, nunca mais consegui ficar longe dele. Penso que toda bailarina é um ‘ser musical’, na verdade o som e o gesto caminham juntos. Antes de dançar, eu já era fascinada por música, desde muito cedo ouvia os vinis de Jazz do meu pai, e artistas como Ray Charles,Alceu Valença e Nat King Cole. Com o ballet, veio minha paixão pela música erudita e depois, na adolescência e na faculdade, vi, encantada, um vasto universo musical a ser decifrado. Ao conhecer Felipe, primeiro senti a admiração pelo grande músico que ele é, confesso que me apaixonei pelo seu talento como baterista e conhecedor da música. Depois, com a convivência, aprendemos a nos admirar, nos identificamos em nossa paixão pela Arte em todas as suas nuances e o fato decisivo para nossa união foi o respeito com que meu marido sempre tratou a Arte da Dança. Posso dizer com certeza, que depois que o conheci aprendi ainda mais sobre esse mundo musical e minha maneira de ouvir e ‘destrinchar’ a música árabe melhorou muito. Não só em relação a musica árabe, mas Felipe me ensina muito, o tempo todo. E Felipe é meu maior crítico e incentivador, ele corrige, dá dicas e entende como ninguém essa minha alma de pássaro, livre, leve, intensa. Por ele, me tornei uma pessoa melhor não só na dança, mas na vida. Você tem uma beleza singular e suas fotos são lindas. A beleza abre portas ou atrapalha? Vou abrir um parêntese aqui. Primeiro, obrigada pela ‘beleza singular’. As fotos lindas, são mérito do meu primo e também fotógrafo Henrique Perama. Não saberia falar sobre beleza, porque como disse no inicio da entrevista, até pouco tempo, me sentia um patinho feio. Na verdade, costumo dizer que só me sinto bonita em dois momentos: quando estou dançando e quando estou nos braços do meu marido. Se alguém disser que me ouviu dizer que ‘sou bonita’, esse alguém mente. Jamais falei ou tive essa percepção de ‘ser bonita’ e isso é algo muito pessoal. Eu nunca soube lidar com o conceito de beleza, pois cresci num universo em que minha referência feminina, que é minha mãe, não costumava me elogiar ou demonstrar afeto. Isso foi algo de mãe para filha, envolveu tradições e dinâmicas familiares, foi superado, mas de alguma maneira mexeu muito comigo. Isso foi muito trabalhado em mim depois de adulta, a aceitação, a compreensão do próprio corpo. A dança me ajudou muito nisso. Muitas pessoas podem não acreditar, mas eu não sei ver ‘beleza’ em mim.Foi algo que, digamos, não foi treinado, estimulado ou desenvolvido em minha mente. Por isso fico tímida e agradecida quando alguém me elogia, mas confesso que sempre me sinto sem saber como agir. Agora, o que consigo ver com facilidade é o carisma, isso é algo de família mesmo. Eu posso estar vestida com moleton, no meio da multidão e não importa o que aconteça, as pessoas vão me olhar e ‘reparar’ em mim. É algo impressionante. Eu sei que tenho um ‘que’ no jeito de andar ou me portar que faz com que isso aconteça, mas não saberia explicar o que é. Já sofri muito com isso, porque sempre fui tímida, mas agora já me acostumei e até cumprimento as pessoas que me olham tanto... também já aprendi a lidar com ciúmes e crises de baixa estima que ‘amigas’ desenvolvem ao meu lado, sabe, aquela coisa de ciúme do namorado, ou não entender o afeto direcionado a um amigo, ou lidar com o fato de eu estar no palco, em evidência e etc... Eu lido com tudo isso com a serenidade que tenho por saber que, com o passar dos anos, meu corpo vai envelhecer, minha energia ficará mais contida e tudo o que vai interessar, sempre, é minha mente. Sobre beleza atrapalhar, não sei, nem sobre abrir portas, acho que isso acontece com mulheres que realmente são bonitas ou trabalham com imagem, não é o meu caso. Sou apenas uma garota comum, com um certo ‘charme’, tentando ser feliz. Deixe uma mensagem e cite um poema que goste. Eu adoro poemas e poesias, meus autores favoritos são o Fernando Pessoa (e todos os seus ‘personagens’) e Olavo Bilac. Vou citar dois poemas polêmicos, são desses que gosto! Leiam ‘A Alvorada do Amor’ de Olavo Bilac , e o meu favorito, que peguei pra mim, esse poema é meu! rs... é ‘Cântico Negro’ de José Régio. A mensagem, básico e prático: “Não faça para o outro o que não quer para você.” Luz para todos!
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