JADE EL JABEL

 1.       Jade, a primeira vez que vi você dançando fiquei hipnotizada com o seu olhar. Percebi, logo depois, que esse era um sentimento de toda a platéia, pois todos estavam magnetizados com a sua presença. Fale um pouco sobre a ‘expressão’ na dança e se possível, dê algumas dicas para facilitar esse processo para a bailarina.

Quando comecei a dançar na Khan El Khalili, aprendi uma coisa com uma bailarina, já na época muito experiente (1995, Kareema) q "Ninguém é capaz de se deixar completamente de fora da dança... a gente 'vai junto' e vc é dançando o q é na vida, pra bem e pra mal!" Acho q, no meu caso, é a intensidade dos meus sentimentos, é a "tormenta de sentir tanto" q nada suporta, nada é suficiente, então acaba "vazando" pelo olhar, pela expressão... E eu sou, mesmo, intensa... Tudo, comigo é até o fim, até a morte, até doer... Eu amo, mesmo, sinto, mesmo, e tenho prazer demais dançando... Não sei se é uma coisa de "aprender", de "ensinar"... Mas, como dica, vai a observação... Veja a mulher parindo, comendo, gozando, sofrendo... O q acontece com a expressão? Acontece o que vem lá de dentro e quando dançar for "gostoso", a expressão vai ser de "ai que gostoso dançar"... Acho q o prazer é tudo!

2.       Fale sobre as atualidades em dança do ventre. O que acha das novas tendências em fusões e estilos? (Ballet, Flamenco, Tribal, etc..)

Eu ouvi um cara (artista plástico) dizendo uma coisa q explica bem o q penso disso: "O artista que não é de seu tempo, não é de tempo algum"... O q acho? Não acho nada... acho q tá aí... O meu critério é o q é belo e, se for "lindo", pode, se não, não pode... Daí, vale tudo! Pro meu gosto pessoal, acho "Heavy Belly dance" meio demais, tipo "não vi e não gostei", mas não acho q somos escravas do que a Naima Akef fez em 1940. É lindo mas ela já fez e foi em 1940. Repito, meu critério é o q é belo e feminino, dentro desse universo, na minha opinião, vale tudo!

      3- Quais são as bailarinas que te inspiram? Por quê?

Umas pela técnica, outras pelo Feeling, outras pela paixão e essas coisas foram mudando de lugar com o tempo... Nagwa Fouad, Monah Saaid, Fifi Abdo, Naima Akef, Dina, Randa Kamel (nessa ordem) e, brasileiras, Najua Sune e Soraya (nessa ordem, também)... No comecinho, técnica, depois paixão (Fifi e Dina), depois técnica de novo (Naima), depois paixão (Dina), depois paixão+técnica (Randa)... No Brasil, Postura e classe (Najua) e Autenticidade, personalidade, ousadia (Soraia)...

4.       Fale um pouco da ‘Jade fora dos palcos’...do que gosta de assistir na tv, filmes preferidos, livros, músicas.

Livros variam muito... leio qualquer coisa q cai na minha mão, mas como falei sobre "intensidade", sobre sentir demais, agora tenho lido Clarice (Lispector) e não consigo gostar de mais nada! Rs... Na TV... sei lá... sinceramente, acho tudo uma m... rs rs rs... Gosto de programas sobre bicho... o grilo sei lá de onde, a reprodução dos felinos não sei onde... acho tudo lindo! Filmes, gosto dos q dizem alguma coisa q eu nunca ouvi, q me façam mudar de idéia, q me façam pensar... Tenho horror de "lugar comum" de romance "melado", de "filosofia de boteco"... e amo de paixão conversar com meu marido, rir com ele, dele, de mim, das coisas q ele "aponta", amo minhas amigas e suas maluquices, minhas alunas, os "fãs", trabalho até quando não trabalho, estudo... Ouvir? Música árabe (Oum Kalthoun,  mais q qualquer coisa) e brasileira... melhor que isso, só mesmo o silêncio...

5.       Você dá aulas, workshops e trabalha como Engenheira de Som. Compartilhe com a gente como é essa vida tão corrida que nós mulheres levamos hoje em dia e como trazer a leveza para a dança, mesmo em momentos em que tudo o que gostaríamos de fazer era sumir!

Abandonei a engenharia de som... Sobre a correria, Habibi... Ser mulher o tempo inteiro, não se abandonar, mandar as pessoas "praquele lugar" de vez em quando, amar o que faz (e não fazer o que ama!) pq todo trabalho tem seus "caroços", rir de si mesma, sem ficar "dando muita moral" pros problemas, manter o humor, cuidar da aparência, ficar de olho no espelho, usar cremes, ter uma balancinha no banheiro, não comer açúcar branco, alongar de manhã, sorrir pras pessoas, dar esmolas... Construir um dia-a-dia que seja alguma coisa boa pra você e pros outros... Não ficar esperando que aconteça "aquela puta coisa" pra se sentir feliz e, amar as pessoas, impor respeito, não deixar que te convençam de qualquer coisa... A rotina é uma coisa maravilhosa!!! Minha mãe perdeu o marido com um certo "requinte de crueldade" e durante o "processo de perda" dela eu disse "Vc deve estar morrendo de vontade de passear, de viajar, essas coisas" e ela disse "Não, filha... eu quero cuidar da minha casa, fritar um ovo, lavar a roupa... a rotina é a melhor coisa da vida! A gente pode viver sem 'momentos incríveis' mas sem a rotina, fica insuportável". Concordo com ela...

6.       Você se converteu ao Islamismo. Como é adotar essa postura em nosso País, poderia dizer algo?

Putz... que coisa difícil de explicar... Na verdade (pra tentar ser rápida na resposta), depois de um certo tempo (sou convertida há 7 anos), desisti de "adotar essa postura"... Minha coisa, minha religiosidade, minha devoção é única e exclusivamente para Deus... Não adotei nenhuma postura, depois q descobri que sempre fui muçulmana, mesmo antes de saber, relaxei com isso... E Deus, em sua infinita misericórdia me toca todos os dias... Ele está presente em tudo, em como conduzo cada ato, cada palavra e isso é que é Islam... Conheci tanta gente "tão muçulmanuda" e que, no fundo, não tem a menor idéia do que faz/fala/sente que fui ficando cada vez mais segura (especialmente com relação a ser bailarina, a não usar Hagab - traje "islamicamente correto") porque, no fundo, nasci muçulmana, Deus me deu isso de presente, o resto, é tudo "pode ser", deixo para descobrir no Julgamento Final, "lá no dia" a gente vê...

 7.       Sua dança é forte e ao mesmo tempo delicada. Sua presença em cena é digna de uma Rainha, mas prefiro dizer que você é dessas ‘Feiticeiras’, no melhor sentido. Quais sentimentos fluem em você enquanto dança?

O público, Miau... A música entra em mim, me toma completamente e o resto, vem das pessoas que estão lá olhando pra mim... Às vezes, tenho vontade de passar a mão num microfone e dizer às pessoas "É tudo pra você, por você, com você" Sobre ser "rainha", sobre ter classe, estar "linda", estar inteira, é minha obrigação, é uma bênção! Deus me deu talento, o resto, é minha obrigação fazer, faço o que posso, entro com tudo que posso dar e saio do palco sem nada, é tudo por/para vocês!

8.       Fale sobre o estrelismo que infelizmente paira em algumas bailarinas. Como lidar com fofocas, inveja e essas coisas de bastidores, têm alguma dica prática para todas nós?

Olha... eu ainda me irrito um pouco, às vezes... ainda me decepciono quando vejo um "de novo!!!" que me envolve mas... é assim... As pessoas fazem o que sabem e podem... Uns inventam, outros, competem, outros têm "ataques" e, enquanto isso, a gente dança a Dança do Ventre... Lá no banco, tem gente q fala que o "gerentão" tá comendo sei lá quem... é uma coisa da vida. Sobre ser "estrela", hoje, rio disso! Tô há 15 anos nessa "balada" e já percebi que "a verdade tem perna longa" e essas coisas fundamentadas em "marketing", em ser a "nova sei lá o que"  tem seu tempo de duração. Prevalece a verdade, a autenticidade, o talento... Minha dica: Confie no público... O julgamento é deles... "A voz do povo é a voz de Deus", deixa rolar... Quando a Soraia morava no Brasil e saíamos muito juntas, tínhamos uma frase (de brincadeira) q sempre uma de nós dizia antes de sair: "Bora, Fia, encher a boca do povo de assunto!" rs rs rs... De novo, humor! O humor resolve bem essas coisas...

 9.       Cite alguns nomes de músicos e cd’s bacanas para toda bailarina que quer ter uma coleção e tanto para grandes shows.

Ui... que pergunta difícil! Nome de músicas pra show... Vou tentar ajudar com uma sugestão de Show: Uma clássica (Misanscene, aquelas de 10 minutos, orquestra, introdução cheia de coisas), uma moderna, uma mais "sentimental" e um número folclórico... Em "algum momento" a menina arrasa... Pra ouvir, sempre: Oum Kalthoun, Oum Kalthoun e Oum Kalthoun... Não tem um equivalente ocidental mas, música árabe (egípcia) ela é absoluta, eternamente absoluta...

 10.   Jade, você sabe como te admiro,não é?! Sempre digo para as minhas alunas que eu gosto de estudar sua dança e para mim, você é referência quando mencionamos ética e expressão. Obrigada por conceder este entrevista e fale agora, sobre o que quiser.

Já q é sobre o que eu quiser, sou professora até "antes de ser gente", vão dicas de coisas pra aprender fora da sala de aula de DV:

Assista: "Frida Kahlo", "Contos Proibidos de Marques de Sade", "Camile Clodel", "Dançando no escuro", Leia Clarice Lispector, Álvaro de Campos, A Biografia do Che Guevara, Veja Gustave Klimt, Morreau, John Willian Waterhouse, Pollok, fique com quem você ama e que te ama também, encare estar "de bem com a vida" como uma obrigação e não uma "casualidade", dê gargalhadas, tenha orgasmos, custe o que custar! Tudo isso, pra entender um pouco mais sobre a paixão, sobre amar o que faz, sobre fazer o que ama, sobre "fazer concessões", sendo feliz com isso, sobre acreditar estar no caminho certo!!!

Receba todo o carinho das minhas alunas e meu amor. Obrigada. 

Querida, é sempre um prazer falar com vc, receber o seu tão sincero amor!!!
Com amor e com Deus!
Beijo!
Jade

 

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