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YASMINE AMAR
1- Você tem uma carreira de respeito no estado de Mato Grosso e também tem o reconhecimento da famosa casa em São Paulo Khan El Khalili, referência em Dança do Ventre. Que diferenças entre os estados você pode nos citar em relação a cultura árabe, estrutura para eventos e aulas, reações do público. A Khan El Khalili é um local muito especial. Os shows lá tem características de magia e encantamento. Isso é resultado de um cuidado que os proprietários sempre tiveram com a questão artística da Dança. Lá é mais que um local de shows e aprendizado, é um verdadeiro Templo repleto da vibração de tantas bailarinas que por lá passaram e que pulsa em cada sala. É uma emoção diferente de tudo dançar lá. Aqui no Mato Grosso, atualmente, há uma preocupação com a qualidade artística, um compromisso com o belo e , cada vez menos, pessoas que buscam na Dança do Ventre mero espetáculo de variedades. Isso é muito bom , dá uma tranqüilidade saber que as outras escolas estão investindo em trazer cursos e viajar pra estudo e aprimoramento. Mas vejo que as diferenças principais dizem respeito às oportunidades. Nos grandes centros, apesar de maior competitividade, há mais diversidade cultural e de entretenimento. Já aqui na minha cidade, nós bailarinas muitas vezes temos que criar oportunidades pra mostrar nosso trabalho ao público, de maneira digna. Não há muitos eventos , em comparação aos grandes centros nem tampouco locais que abram espaço pra Dança , que sejam acessíveis ao público com renda média. Também não há um mercado pra se trazer grandes eventos que acabam restritos aos grandes centros ou ao eixo rio-sp-brasilia, como a vinda de bailarinas egípcias. 2- Pelas suas mensagens, fotolog e textos, é possível perceber um interesse genuíno na valorização não só feminina, mas do ser humano e do planeta. Como mãe, professora e bailarina, fale a vontade sobre as questões que você julga importante, além da dança. Acredito que cada uma de nós vem para este planeta com uma missão e tenho certeza mais do que nunca que a minha missão é trabalhar com a Dança bem alem da técnica, é trabalhar com a Dança do Ventre como portal para a alma feminina. Por isso sempre me dediquei ao estudo do feminino, dos arquétipos e símbolos e na compreensão da psique feminina além do corpo. E, quanto mais estudo, mais considero importante transmitir pois não consigo me considerar plena se eu não puder passar o conhecimento. Considero a professora e a bailarina como canais e não podem ser bloqueados. Considero a Internet um excelente meio de abranger mais pessoas e penso que quanto mais pessoas com um pensamento holístico, mais estaremos contribuindo para um planeta saudável e feliz. 3- Às vezes, no trabalho com grupos, surgem arestas como vaidade, anti-ética, fofocas. Dê uma dica de como lidar com isso, tanto a aluna que é `vítima` de invejinhas como a professora, que deve eliminar esses comportamentos do grupo. É um assunto delicado. Na verdade não há uma receita pronta pra lidar com essas situações do que o autoconhecimento e ter em mente sempre que a Dança do Ventre trabalha com as emoções e que elas afloram e por isso estados alterados surgem e mais conflitos também surgem com as diferenças. Desde que haja caráter e sinceridade, há como haver respeito. Mas é claro que existem afinidades e sintonia . Quando estamos sintonizadas com alguém , tudo flui mais facilmente. As vezes essa sintonia muda de freqüência e surgem os desentendimentos. Gosto sempre de parar e analisar qual a minha parcela de comprometimento com cada situação pois tudo e todos estamos interconectados e ninguém entra na vida da gente por acaso, há sempre um aprendizado, uma troca, um porquê. Também considero importante compreender em se tratando de grupos femininos que tudo na Natureza tem um ciclo que se cumpre. Uns mais longos outros mais curtos. É importante compreender que alguns ciclos ao cumprirem necessitam de renovação. Muitas vezes, a aluna precisa de novas fontes de conhecimento e é importante compreender isso e deixá-la ir, deixá-la voar sozinha. As vezes, esse rompimento é conflituoso e doloroso mas precisamos saber lidar com isso. É como um filho que sai de casa pra estudar. Os círculos de mulheres necessitam estar em constante movimento pois tudo que pára gera estagnação, como diz aquele ditado antigo: pedra que não rola cria limo. Então o melhor é não ter apego aos conflitos e exercitar a compreensão, aprendendo a perdoar e a pedir perdão. Gisele Bomentre ensinou uma vez que a principal característica de uma professora de Dança do Ventre é a "compaixão". Quando me perguntam se estão prontas pra dar aulas, sempre digo isso às minhas alunas e pergunto: você está pronta pra exercitar a compaixão? 4- Sobre técnica: você também ministra aulas de Yoga. Fale-nos sobre a importância do preparo físico e do conhecimento do corpo. Ministro aulas de Yoga, Flamenco, Dança do Ventre e Ginástica Laboral e também sou especialista em Pedagogia do Esporte com aprofundamento em FUTSAL e me orgulho em dizer que em tantos anos nunca tive uma lesão. E olha que carrego minha nenem de 13 kg pra cima e pra baixo, até já dei aula com ela no colo . Quando comecei a ensinar Dança do Ventre, eu tinha muitas dúvidas sobre a biomecânica dos movimentos, questões anatômico-fisiológicas e cinesiológicas que só poderiam ser compreendidas através de um estudo acadêmico. Foi o que me levou à Faculdade de Educação Física. A compreensão mais profunda do movimento me levou à Formação em Yoga. Mas não parei por aí. Tenho encontrado muitas respostas também no estudo do Yoga Tibetano. Por exemplo, no Yoga tibetano tem exercícios pra desbloquear a energia estagnada no chakra básico, região dos quadris, que ao ser executados propiciam maior facilidade em executar shimmies , por exemplo. As pessoas perguntam muito sobre a preparação física específica pra bailarina e professora de Dança do Ventre. Tão importante quando flexibilidade é você adquirir força muscular em determinados grupos, em especial glúteos e abdomen além da musculatura das costas, pra estabilizar a postura e manter a coluna mais ereta e alongada. Muitas vezes a gente fala pra aluna manter a coluna ereta mas ela não consegue porque a musculatura não tem força o suficiente, as vezes os eretores da espinha são tão fracos que ela sente muita dor ao tentar manter a coluna ereta. As vezes nem é desvio da coluna e sim falta de força na musculatura profunda que envolve a coluna vertebral. É aí que eu entro com exercícios de fortalecimento porque um dos vícios posturais mais severos e graves em Dança do Ventre, acontece quando a aluna "descansa" o tronco, muitas vezes ocorrendo até mesmo uma leve projeção pra trás ao colocar a perna à frente, na posição básica. Isso é muito comum e deve ser corrigido porque gera desequilíbrio físico e bioenergético. Tudo tem que estar em equilíbrio e é importante que o corpo deve ser visto sempre como um todo e não fragmentado pois um desequilíbrio "aqui" afeta "ali" e as coisas vão complicando caa vez mais se a pessoa não desenvolve consciência corporal. Muitas vezes a aluna chega tão tensa do estresse cotidiano que, se a professora não aplicar um relaxamento no inicio da aula, essa aluna não terá aproveitamento na aula. È preciso distender o corpo, respirar profundamente pra estar mais receptiva ao aprendizado. As vezes 2 ou 3 minutos são suficientes, só pra quebrar aquela tensão do trânsito e do dia-a-dia. Todo esse estudo acabou tornando-se um diferencial em minha carreira e pessoas do País inteiro me procuram, em especiais profissionais, bailarinas e professoras, algumas com lesões e outras procurando evitá-las e sempre que posso procuro ajudá-las. Nos meus projetos estão um curso de preparação física pra Dança do Ventre e outro sobre a Dança e o Ludico , uma abordagem lúdica para o ensino da Dança do Ventre pois muito me preocupa ver crianças dançando como adultas e fazendo aulas na mesma turma. Penso que deve haver um ensino direcionado pra cada faixa etária. 5- Quais bailarinas são referências na sua dança, e por quê? Adoro falar sobre minhas referências na Dança pois são as mestras que sempre nos inspiram e adoro fazer eternas referências às minhas mestras. Minha primeira professora chama-se Cleo de Cicco e mora em Campinas / SP. A Cleo me ensinou a coisa mais importante que é a paixão pela Dança do Ventre. Ela é uma bailarina enigmática, olhar forte de uma descendente de ciganos. Ela é doce e nunca esquecerei ela com sua roupa verde-esmeralda dançando "Raks Mustapha", do George Abdo, perfeita e sinuosa como a mestra Nágwa Fouad e ao mesmo tempo forte como as libanesas. Cleo foi aluna de duas grandes mestras com quem tive a grande oportunidade de fazer aulas: Lulu Sabongi e Soraia Zaied. Essas duas dispensam qualquer apresentação pois são ícones e todas no meio da Dança conhecem seu trabalho. Em minha dança é notória a influência destas bailarinas em detalhes e na estrutura de minha dança. No meu aprendizado também tive a oportunidade de estudar e conhecer uma grande bailarina brasileira que , atualmente, dança no Cairo: Gisele Bomentre. Sua classe e elegância sempre me atraíram muito e tive mais afinidade ainda quando tive contato com ela no estudo do feminino. Minha dança traz também muita influência desta bailarina. Eu me considero uma apaixonada pelas bailarinas brasileiras. Na Khan El Khalili, sempre apreciei a Jade Al Jabel e , mais recentemente, as "virtuoses" Nur e Kahina, tão clássicas e desenvoltas, sempre me permito encantar com suas performances criativas e belas. Também fui muito inspirada pela dança de Yasmin Namu e Amar, ambas da Khan. Daí a escolha de meu nome artístico, Yasmine Amar.No Egito, gosto das mais antigas, mais clássicas, em especial Samia GAmal, Nagwa Fouad e o grande mestre Mahoud Reda e Farida Fahmy.
6- Conte-nos um pouco de sua trajetória como bailarina. Cresci dançando livremente a Dança Cigana, meus pais nômades e errantes, no sentido figurado da palavra, sempre dancei sem muitas regras e tive muita ligação com os ciganos e o flamenco. Nasci em Curitiba mas morei em vários estados além de Mato Grosso. Fiz um pouco de Ballet na infância o que procurei aprofundar na idade adulta. Conheci a Dança do Ventre em 1994 e foi arrebatador. Em 1996, quando cheguei em Cuiabá, fiz uma apresentação num centro Holístico e surgiram muitas propostas pra shows e fui requisitada a ensinar, o que pra mim era uma paixão, um hobby , acabou virando profissão. Mudei pra Cuiabá e passei a construir meu conhecimento através de estudos de vídeos e viagens de estudo e aperfeiçoamento. Em 1999 tive a oportunidade de participar da primeira pré-seleção e me orgulho de fazer parte da equipe de bailarinas desta casa. Sempre busquei a transcendência através da dança e aprendi com as bailarinas mais antigas da casa que , para obtê-la, é necessário pleno domínio da técnica. Nestes anos participei na formação de várias professoras e pude possibilitar que muitas crescessem e voassem e isso faz com que eu me sinta realizada. Sempre fui muito aberta e fico feliz em poder ter passado algo a essas bailarinas. Muitas ainda estão comigo outras desenvolvem seu próprio trabalho separadamente, outras, paralelamente. Não sou uma pessoa de fácil relacionamento por mais que pareça, sou muito intensa e explosiva, apesar de dócil, de vez em quando me esparramo e não há quem junte... Mas quem sabe compreender esta cigana, sabe que tem uma amiga e professora dedicada e compreensiva – na medida do possível... 7- Obrigada pela entrevista, fique a vontade para falar sobre o tema que mais gosta. Um dos temas que mais me agradam na Dança do Ventre é a importância da contextualização, tanto nas aulas como nos shows. Quando me senti atraída pela Dança do Ventre, alguns elementos nesse Universo dito "oriental" me puxou como um ímã. A música, os incensos, a transparência dos véus , as saias esvoaçantes, as tornozeleiras ricamente trabalhadas, o som das moedinhas, etc Com a modernidade e a ocidentalização da música e da Dança, muitas bailarinas foram perdendo este vínculo. Eu mesma muitas vezes me vi envolta em alguns modismos e senti uma necessidade enorme de resgatar alguns elementos e contextualizar a dança. Uma das coisas que eu resgatei foi dar aulas de saia. A comodidade das malhas de ginástica faz com que as alunas prefiram malhas ou macacões do que as saias tão femininas e esvoaçantes e que tão bem simbolizam o feminino. Alguns detalhes são tão sutis e delicados que passam despercebidos. Os véus de seda, por serem leves e esvoaçantes tomaram o lugar dos véus mais pesados e transparentes nos shows e aulas. No entanto, o véu está associado ao inconsciente e trabalhar com a silhueta por detrás de um véu transparente pode ser muito enriquecedor. O véu de seda é ideal para entradas em cena esvoaçantes ou grand finales bem a la "Lulu Sabongi", cheios de versatilidade e leveza. No entanto, conhecer vários tecidos e explorar suas possibilidades deveria fazer parte da vivência de cada bailarina, em especial quando aluna. Outra coisa que tem se perdido é a questão da modernidade excessiva dos trajes. Há que se haver um cuidado. Inovar é importante, eu diria até que é necessário, eu mesma muitas vezes me rendi a trajes bem exóticos mas acredito que exageros podem descaracterizar causando uma excessiva ocidentalização o que entraria em utro tema já bastante abordado. Outra coisa que considero importante dentro do tema contextualização é a bailarina comunicar ao seu público que está acontecendo, em especial se esse público for leigo. As vezes nós bailarinas esquecemos que o universo Belly Dance é sui generis e que as pessoas que não estão mergulhadas neste universo nem sempre compreendem o que está se passando quando a bailarina dança um solo de derbake, um khallige, um Said , por exemplo e que, se você falar duas linhas sobre o tema, ou contextualizar com um poema, além de enriquecedor, pode tornar seu show muito mais contagiante. Na verdade, todos esses detalhes são bem pessoais e muitas bailarinas mais experientes podem discordar em alguns tópicos do tema que na verdade são mesmo opiniões que têm haver com minha experiência pessoal e mais ainda, com detalhes com os quais eu, particularmente , me identifico. Tem algumas alunas que brincam muito com isso e acham que não tem nada haver, e são bem moderninhas e o bacana é justamente esse respeito entre as diferenças. O tapete oriental é de uma riqueza simbólica incrível e carregar seu tapetinho para o show é importante. O tapete pode delimitar seu universo e seu círculo de proteção quando dança e pode representar também um elemento de contextualização. Nem sempre podemos ter um cenário mas carregar um tapetinho nem sempre é difícil. Ele pode ser preso ao solo através de fita adesiva bem larga, aprendi com o pessoal responsáveis pelos cenários nos vídeos da Khan El Khalili, que, a propósito, são exemplos de contextualização. Enfim, muitas coisas poderiam ser ditas sobre o tema mas prefiro deixar em aberto pra que cada uma possa complementar a lista de elementos mágicos e possam manter viva a força desta Arte Milenar! Muita PAZ a todas ! Obrigada a você , Lu, que me enviou as perguntas colocando esta cigana que vos fala dentre ícones que são meus referenciais na Dança e também a você que parou suas atividades pra ler, espero que minhas palavras sejam sempre compreendidas mesmo quando discordarem. Não tenho pretensões de ser uma mega star apenas de transmitir aquilo que me encanta profundamente minha alma.
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