ELIS PINHEIRO

 

1-  Elis, ao assistir uma apresentação sua, é visível que você tem um estilo diferenciado, com uma técnica apurada e expressão mais introspectiva, fugindo do ‘lugar comum’ que é o sorriso caricato ou a exacerbada simpatia. Fale um pouco sobre a sua leitura facial da música e o que pensa sobre expressão, na dança.

 Acredito que não seja possível nos isentarmos de nossa personalidade quando dançamos – a pessoa que você é fora do palco, de alguma forma, transparece quando você dança.

Sempre fui considerada uma pessoa séria, quieta e observadora e essas características aparecem muito fortes na minha dança.

Quando comecei a dançar fui muito cobrada a “sorrir mais”, a me “comunicar mais” com o público, como se essas fossem as únicas possibilidades de expressão quando se dança.

É maravilhoso ver uma bailarina sorrindo, esbanjando alegria, porém, na minha opinião, somente se isso for genuíno; se essa for a expressão verdadeira dela quando dança. Do contrário, cairemos no “sorriso caricato” e na forjada sensação de alegria.

Assim, acredito que cada uma deve buscar a sua própria maneira, seu próprio caminho, e tentar se encaixar menos nos modelos pré-estabelecidos e nas fórmulas “garantidas” de sucesso.

 2-       Diferente da maioria das bailarinas que, ou começaram cedo com o Ballet, ou já iniciadas na Dança do Ventre, sua experiência veio primeiro do Teatro e bem depois com a Dança. Além disso, você tem formação em Dança e Produção Cultural, além de ter estudado com o incrível Ivaldo Bertazzo. Conte-nos um pouco sobre a necessidade do embasamento artístico para uma bailarina e em que medida as técnicas do Teatro e dos ‘Bastidores’ da Produção Cultural auxiliaram em sua experiência.

 Acredito que para quem decida atuar profissionalmente no mercado atual, tanto de apresentações de dança, quanto no de aulas de Dança do Ventre, é imprescindível ter um conhecimento mais amplo a respeito da dança, demais formas de arte e cuidados relativos ao corpo e á saúde.

Em todas as demais área de conhecimento, os profissionais tem de se manter fazendo cursos de reciclagem e atualização. Assim, na Dança do Ventre não deve ser diferente.

Dentre as muitas coisas que a graduação em Dança e Movimento, o estudo de demais estilos de dança, e até o envolvimento com o teatro na adolescência me ensinaram, posso destacar a importância da disciplina, do estudo da teoria daquilo que nos propomos exercer na prática e a determinação para alcançar um objetivo.

Quando você toma contato com grandes profissionais de outras áreas das artes – como o Ivaldo Bertazzo, por exemplo - percebe o quanto tem de “ralar” para crescer e melhorar na sua atuação profissional.

 3-       Atualmente há uma discussão informal sobre os variados estilos, fusões e inovações na Dança do Ventre. Qual a sua opinião sobre?

 Eu sou bastante aberta às fusões, misturas, experimentações e quaisquer novas possibilidades dentro da Dança do Ventre. Porém, desde que isso seja feito com critério.

O que quero dizer é o seguinte: se amanhã eu decidir que vou fazer uma fusão da Dança Afro com a Dança do Ventre, por exemplo, isso quer dizer que, no mínimo, eu devo ter a base dessas duas danças.

Assim, acho que temos liberdade de “misturar” o que quisermos... porém, desde que saibamos o que estamos fazendo.

E acho que a grande “confusão” que vemos por aí, se deve, e em parte, por essa falta de clareza e conhecimento dos estilos e técnicas de dança.

 4-       Seu biótipo longilíneo e esbelto é resultado da dança ou você tem alguma restrição alimentar, prática de exercícios, enfim, qual o segredo da sua boa forma?

 Já tive bastante problemas de sobrepeso na adolescência.

No entanto, com a atual rotina de aulas, posso me dar ao luxo de comer absolutamente de tudo um pouco, sem ter de me preocupar com a balança.

A única atividade física que faço fora a dança é a prática de longas caminhadas aos finais de semana, pois realmente adoro!  

 5-       Desde a primeira vez que ti dançar - ao vivo, na Khan el Khalili- o que mais me chamou a atenção é a qualidade do seu deslocamento. Você flutua! E tem um trabalho diferenciado com os braços, tirando o foco do quadril por diversos momentos, algo que me encantou em sua dança. Poderia falar um pouco sobre as maneiras que você encontrou para executar os deslocamentos com tanta fluidez?

 Realmente os trabalhos de tronco, braços e fluidez nos deslocamentos são um grande foco do meu trabalho como bailarina e professora.

Na verdade, acho que tudo começou por causa do tamanho dos meus braços – são muito longos!  Minhas professoras sempre me chamaram a atenção para como eu posicionava ou movia eles. E assim, fui obrigada a dar uma atenção diferenciada a essa parte do meu corpo, o que resultou num estudo mais aprofundado da fluência dos braços, e da organização do tronco.

Já em relação ao deslocamento... eu adoro explorar o espaço. Linhas curvas, retas, diagonais, enfim... todo tipo de desenho geométrico é motivo para deslocar. É uma questão de gosto, de preferência.

 6-       Depois de cinco anos entre as estrelas da Khan el Khalili, você abriu seu próprio estúdio. Como é a sensação de ter seu próprio ambiente e método de trabalho? E como é trabalhar na Casa de Chá,em especial com Habib?

 Ser dona do próprio negócio é realmente um desafio a cada dia. O mercado da Dança do Ventre em São Paulo é muito competitivo, com muitas boas opções para quem quer fazer aulas. Assim, você tem de investir na qualidade.

Todo o processo de aprendizado envolvido em manter e fazer crescer meu estúdio me proporcionou maior maturidade, de maneira que somente agora, depois de quase 3 anos de trabalho, consegui desenvolver minha didática e método próprio de trabalho, realmente diferenciado.

Todo esse processo com certeza influenciou minha atuação como bailarina na Khan el Khalili. Hoje sinto ter uma identidade mais clara como bailarina lá dentro, e o Jorge respeita muito isso. É claro que temos alguns pré-requisitos para trabalhar lá, mas isso não passa por cima do estilo nem foco de trabalho de cada uma.  

 7-       Como é a Elis fora dos palcos, do que gosta de fazer, passatempos, lazer. Conta pra gente?

 Como típica sagitariana, amo viajar. Mas quando isso não é possível, adoro coisas simples, como ir ao cinema ou levar minha cachorrinha no parque e caminhar.

Atualmente, estou numa fase maníaca com internet. Quando tenho tempo, passo horas assistindo vídeos relativos a todos os estilos de dança, música e esportes no youtube.

 8-       Cite as bailarinas que você gosta de estudar, que admira.

 A minha bailarina preferida sempre foi Nadia Gamal, com toda a sua imprevisibilidade, energia e dramaticidade. Linda!

De tempos em tempos, volto minha atenção para alguma outra bailarina, a qual fico um tempo estudando e assistindo videos. Nesse momento, estou curtindo muito os vídeos recentes da Randa Kamel, com toda a sua paixão, técnica e força muscular. É demais!

   9-       Muito obrigada por esta entrevista, sucesso neste ano e utilize este espaço para falar sobre o que quiser. Um abraço e obrigada!

 Muito obrigada a você, Luciana, pelo espaço e oportunidade de mostrar um pouco mais a respeito do meu trabalho, para tantas e tantas outras apaixonadas pela Dança do Ventre.

Que essa paixão sempre possa promover a comunicação e a troca de informações entre nós.

Um beijo enorme a todas. 

Elis Pinheiro

 

www.elispinheiro.com.br

 

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