LUANA MELLO
 

 

1- Luana, seu aprendizado em dança vai do Ballet a Capoeira, passando por Práticas Circenses e Samba! Fale um pouco sobre o corpo como instrumento na arte da Dança e porque escolheu, entre todas as modalidades, a Dança do ventre como carreira.

         As únicas danças que realmente estudei a fundo foram o Ballet e o Sapateado   Americano,  nas outras atividades sou amadora. Até meus 17 anos, participava de audições e dava aulas de Ballet. Ia bem na Dança do Ventre, mas nunca havia pensado em me profissionalizar até entrar na escola Luxor em 2000. Foi o Leonel Consorte que me deu a primeira chance. Sou muito grata à ele e ao Tony Mouzayek por todo apoio e incentivo que deram no começo da minha carreira.

 Quando me dei conta, já tinha um monte de turmas, coordenava a unidade Luxor 2 e não dava mais para estudar outras danças. O tempo que permaneci na Luxor – de 2000 a 2005 – me afundei na Dança do Ventre. Fiz todos os workshops e aulas que podia, fiz muitos shows no Brasil inteiro e a Dança do Ventre se tornou a minha vida.

 Em 2005 fui para a escola Aluaha onde iniciei uma nova etapa. Voltei a estudar outras danças e comecei um trabalho mais maduro, longe dos holofotes. Essa busca que eu concretizo hoje com a Eksotik, começou lá e a Aisha, proprietária da escola, foi quem dividiu comigo esse momento de crescimento pessoal.

 Só depois de muitos anos entendi por que me apaixonei pela Dança do Ventre. Existe nela uma magia a lá Isadora Duncan. Ela promove a liberdade de movimentos e deixa que você expresse sua personalidade. Ela incita a real comunicação através do corpo. Já estava cansada de estudar para ser igual a todo mundo. O mundo da dança acadêmica fabrica bailarinos em série e eu vejo na Dança do Ventre a possibilidade de desenvolver uma dança humana. A Dança do Ventre, não deve ser ‘academizada’, sua principal característica é a informalidade que dá vazão a autenticidade.

 2-       O fato de ter os dois títulos mais almejados entre bailarinas de Dança do ventre (Campeã Brasileira no Mercado Persa e Bailarina Padrão de Qualidade da Khan el Khalili) traz mais benefícios ou responsabilidades? O que mudou após conquistar esses títulos em termos de trabalho e reconhecimento?

 Nenhum dos dois mudou a minha vida profissional. O que valeu foi ‘viagem e não o destino’. Foram dois momentos em que estudei muito e me descobri. Foi assim que eles me ajudaram. Não me tornei ‘mais conhecida’ e como sempre fui muito exigente comigo mesma, não senti aumento de responsabilidade.

 Eu não desdenho os títulos, mas não são eles que fazem diferença na carreira de uma bailarina. A visibilidade de ambos é fugaz, dura pouco e se você não tem um trabalho conscistente e uma cabeça boa, em questão de meses é esquecida. A bailarina é quem faz o título, não é o título que faz a bailarina.

 

 3-       É visível que você tem uma preocupação extrema com a seriedade e ética no trabalho com a Dança do Ventre, embora seja uma arte tão carente de definições e parâmetros. Como você lida com o amadorismo que por vezes permeia nossa arte e as intolerâncias com as inovações ou propostas para definir um estilo?

 Fiquei dois anos fora do meio árabe, estudando várias danças e  dando aulas de Dança do Ventre. Me fechei na concha de 2006 a 2008 - até a Eksotik - justamente por causa do amadorismo. Estava cansada de eventos enormes, raramente pontuais e que não pagam cachês para as profissionais. Eles acham que já estão fazendo muito por não ‘cobrarem a sua entrada’.

 Eu queria algo mais sólido, dançar em bares não me satisfazia e o cachê é um ‘cafézinho’. Aumentei meu preço pro tanto que considerava justo, não dançava mais por ‘escambo’ e a reação do meio era de que eu estava ‘me achando’. Eu estava dando valor ao meu trabalho, coisa que toda bailarina devia fazer. Tem muita gente que pensa como eu mas se vende ao sistema. Como percebí que não tinha mercado pra mim, criei o meu mercado. Montei a Eksotik para dar a Dança do Ventre um contexto que eu considero profissional. 

 4-       Seu último trabalho, ‘Dançando a Meia-Noite’ da Trupe Eksotik, foi algo novo para o meio da Dança do Ventre. Você não só produziu um show com todo o aparato artístico de iluminação, cenário, músicos e bailarinas, além de divulgação em imprensa escrita de grande porte, com direito até a ensaio na ‘Contigo!’, bem como ficou em temporada no Teatro. Fale um pouco do que foi esse trabalho, o processo criativo e os resultados.

 O Dançando a Meia Noite foi um laboratório para colocar as minhas idéias em prática e testar qual seria a reação do público leigo. Não foi direcionado para o mundo árabe, pois eu tinha consciência de que entraria em choque com os tradicionalistas.

 Montamos o show em exatos 30 dias. Eu e o Giuliano (marido) bolamos tudo juntos, desde iluminação e figurino até as músicas. Tivemos ajuda de amigos, em especial a cenógrafa Helena Ramos que acabou sendo muito mais perceira do que cenógrafa apenas. Eu cuidei da parte artística e do contexto que as danças teriam. Foi um mega trabalho em equipe.

 Depois entrou a Isa (Isabella Marchioro) que teve participação ativa nas coreografias. Como ela está comigo há oito anos, entendeu rápido o que eu queria e essa parceria foi muito eficiente. A gente ralou seis horas por dia. O mais dificil foi o processo de pesquisa, usamos muito mais tempo montando as coreografias e testando as fusões do que ensaiando repetições.

 Minha intenção, além de levar a dança para o grande público, foi mostrá-la como uma forma de linguagem não regionalizada. Mostrar que ela pode ser contemporânea, que aceita fusões e se comunica através de outras músicas e roupas. Mas também levei a dança clássica ao palco.

 Na estréia eu não estava segura da opinião das pessoas até que percebi choros e risos na platéia. No final do show a reação do público foi surpreendentemente calorosa. Fomos aplaudidos de pé todos os dias. Depois começaram a chegar os e-mails e as críticas quase com 100% de aprovação. Recebemos elogios emocionantes e memoráveis de pessoas do meio artístico. Foi um incentivo para colocar o segundo show em ação! Todo o desgaste valeu a pena!

 
 5-
       Você mesma diz que adora estudar, se alongar... como acha que deve ser o preparo de uma bailarina, em especifico que dance a Dança do Ventre?

 A Dança do Ventre é um bebê, tem muitos campos a serem explorados principalmente nas técnicas corporais. Basicamente para uma boa performance a bailarina deve ter uma boa resistência cardiorespiratória, que consegue através de exercícios aeróbios, uma musculatura tonificada com hipertrofia ou atividades mais dinâmicas como ballet ou artes marciais. Alongamento é essencial, não apenas para a dança, mas para uma vida mais saudável.

 Como não existem aulas específicas para o preparo do corpo da Bailarina de Dança do Ventre, precisamos buscar esses resultados em outras atividades. Infelizmente nossa dança ainda não é autosuficiente. Como a arte do bailarino é feita com seu próprio corpo, sem intermediários, acho que devemos nos manter em forma, com uma alimentação saudável e exercícios físicos intensos.

 6-       Quais as bailarinas que você admira e gosta de estudar? Por quê?

 Do meio árabe Randa e Yousry Sharif. Randa pra mim ainda é a melhor, ela tem uma mistura saudável entre o baladi e o clássico. Tem expressão facial e corporal e uma técnica apurada. Consegue ter personalidade num mundo dominado pelo estilo Raqia Hassam. Yousry precisa de poucas palavras, é um gênio. Mas desde o começo da minha carreira Lulu foi minha inspiração. Tenho respeito e admiração por ela.

 Fora do meio árabe, estudo muito os brasileiros Ivaldo Bertazzo e J.C. Violla. Alguns ícones mais antigos mantém o meu norte, os revolucionários principalmente. Gosto de Ruth St. Dennis e Nijinsk. Pina Bausch é uma paixão nova, mas minha inspiração mor e eterna ainda é a Madame Duncan. Desmond Richardson está no topo pra mim, quando o assunto é a nova geração.

 7-       Em tempos de fusões, inovações, estilos e o mundo livre da internet, como se posiciona sobre o atual momento da Dança do Ventre - as produções, vídeos e afins – e como analisa os meios de comunicação virtuais –fóruns, blogs, etc – que nem sempre são pontuados pelo conhecimento, apenas opinião?

 Acho que o boom da internet foi um marco na história da Dança do Ventre pois democratizou o conhecimento e mostrou ao mundo talentos ocultos. Através de vídeos e blogs conhecemos bailarinas incríveis que não fazem parte da panelinha. Sem a internet teríamos sempre os mesmos ícones. Hoje a ‘fama’ é democrática, todo mundo pode avaliar se você é mesmo ‘tudo isso’, antigamente não tínhamos referências, a gente fechava os olhos e aceitava o que a professora alegava ser bom.

 Realmente, pelo dia a dia do meu blog percebo que são raras as pessoas que discutem baseadas em conhecimentos e estudos. Dou muito valor quando descubro cabeças assim, mesmo que não dividam os mesmos pensamentos que eu. Nosso meio ainda é muito emocional e isso deve-se ao fato de ser predominantemente feminino. Eu defendo a liberdade de expressão, mas o respeito deve prevalecer. Temos um longo caminho pela frente para melhorar o nível das discussões na internet e torná-las saudáveis e impessoais.

 8-       Preciso registrar: no show ‘Dançando a Meia-Noite’ há um duo de espadas, ao som de uma trilha maravilhosa (a versão de Pantera Cor-de- Rosa, de Paco de Lucia) que eu adoro! Conte como é o seu trabalho de pesquisa para criar novidades tão interessantes. O que te inspira?

 O Giu foi DJ e eu sou uma apaixonada por música. Desde o começo da minha carreira sempre dancei sons diferentes. Juntos passamos horas ouvindo músicas de todos os lugares do mundo. Separei as músicas que eu mais gosto e depois avaliei quais eram ‘dançáveis’ e divagei sobre o que poderia e encaixar.

 A das espadas em especial foi se moldando aos poucos. A Dança ia ser bem árabe, mas depois que decidimos trocar as espadas tradicionais pelas Katanas japonesas a coreografia tomou um novo rumo. Acamos coreografando uma mistura de Dança do Ventre com Kung Fu! 


 9-
       Além de bailarina, você trabalha em outras áreas? Fale um pouco da Luana fora dos palcos, sobre o que encanta a sua alma.

 Eu sou cem por cento bailarina. Todos os meus dias são dedicados para a dança, mas eu separo muito tempo para a Luana-pessoa, rs. Sou looouca por livros e leio compulsivamente sobre tudo, esse é meu principal hobbie. Adoro filosofia, arte e música, então acabo adorando discussões de boteco com amigos, muito cinema e shows de música. E morro de dançar na balada, principalmente nas casas gays! Só paro de dançar quando os pés pedem arrego.

 10-   Como lida com o corpo, como instrumento de trabalho e como veículo de vida...o que pensa sobre envelhecer?

 Por enquanto, na ignorância dos meus 26 anos, não tenho medo de envelhecer. Mas só se pode falar isso com mais experiência de vida. Por enquanto, ficar mais velha está sendo o máximo! Eu cuido do meu corpo, mas não brigo com a balança. Escolhí estar em forma de um jeito saudável, pratico muitos exercícios físicos, cuido da saúde, tomo vitaminas e suplementos, mas não abdico do carboidrato frito rsrs!!

 Só tento controlar a alimentação dentro do possível e do natural. Penso que se vamos viver nesse corpo até o fim da vida, o mínimo que temos que fazer é cuidar dele direito! Não fazemos mais do que nossa obrigação e ainda garantimos uma velhice saudável!  

 11-   De algumas dicas de sites, cd’s, música oriental e tudo o que esteja relacionado a Dança do Ventre, que você ache importante saber.

 Música árabe pra mim é Hossam Hamzy, Om Kalsoun e Farid al Atrash. Eles são o topo da música tradicional com qualidade internacional. E acho que existem alguns bailarinos que você não deve morrer sem ter aulas: Mahmoud Reda, Farida Fahmy, Yousry Sharif e Raqia Hassam. Eles são a essência viva da dança árabe. Têm alguns livros essenciais também, todos em inglês, infelizmente ainda não temos os bons livros de dança traduzidos, mas todos estão disponíveis na internet:

 -          Bellydance: a Guide to Middle Eastern Dance, de Keti Sharif;

-          Grandmother’s Secrets, de Rosina Fawsia Al-Rawi;

-          Badia'a Masabni, the legend jewel of the Nile, Vol. 1, de Zain Jordan;

-          The Serpent of the Nile, de Wendy Buonaventura;

 12-   Obrigada pela entrevista, receba meu carinho e admiração. Utilize este espaço para falar sobre o que quiser.

 Muito obrigada Lu, pelo espaço cedido a mim e ás outras bailarinas. É muito bonita essa sua vontade de disseminar a informação e incentivar a leitura e a discussão. Através de pessoas como você, Rô Salgueiro e tantas outras profissionais, estamos começando a era intelectual da Dança do Ventre que tanto nos faz falta!

 Beijo enorme!

www.luanamello.com.br

 

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