1-
Lulu, 25 anos de carreira, uma série de dvd’s lançados, viagens pelo mundo.
Ainda há algo a provar aos eventuais críticos do seu trabalho?
Penso em provar a mim
mesma algumas coisas. Não consigo pensar que tenho que provar aos outros, mas
sim que tenho que ser leal com minhas próprias convicções acerca da dança.
Quero provar a mim mesma que posso falar árabe fluentemente um dia, que meu
livro se transformará em realidade e que conseguirei, independente do prazo,
estabelecer um método que facilite a todas as mulheres o aprendizado da dança.
2-
Como lida com a questão da ‘unanimidade’ ou divergências em relação à sua
arte?
Entendo
que as pessoas são diferentes umas das outras, e suas impressões seguem estas
manifestações. Como posso não respeitar a diversidade?
Cada
um tem o direito de ter sua própria opinião. Um artista não tem que ser amado ou
odiado, ou mesmo compreendido. Seu compromisso principal é agir de acordo com
sua fé pessoal, e ser leal a seus próprios princípios e esse é meu objetivo.
Respeitar ao outro, e respeitar a mim mesma.
3-
Sua trajetória pode ser acompanhada até por suas fotos, sempre uma ‘camaleoa’,
com trajes inovadores –e muito copiados posteriormente – e um corpo que se
adapta as mudanças da idade. Qual a dica que você daria para os cuidados com o
corpo e a manutenção de um visual sempre atual?
Isso é tão difícil, sou
como todas as mulheres, ou muitas delas. Me sinto envelhecendo e tendo
dificuldades em aceitar a passagem do tempo. Usei aparelho nos dentes, por mais
de cinco anos , já dançando profissionalmente, e depois passei por uma cirurgia
na mandíbula, o que mudou de forma sutil mas evidente meu sorriso. Tento me
manter em forma, mas é difícil pois a disciplina é essencial, e nem sempre
minha vida me permite isso. Quero ter o melhor que posso ter na idade em que me
encontro, 42 anos em setembro de 2008. Não me envergonho de minha idade, nem
tento esconder o ano do nascimento, mas tenho que confessar que sofro por ver o
tempo, e adoraria ter controle sobre ele.
Quero voltar a forma,
agora depois desta gravidez, e estar dançando novamente o mais breve possível.
O carinho que recebo de pessoas como a Luciana Arruda e tantas outras
bailarinas, é mesmo o empurrão que eu preciso, para acreditar que posso, que
uma mulher depois dos quarente pode tanto ou mais do que podia aos trinta. Esse
é meu lema, ir em busca do que desejo, desde que não faça mal a ninguém e que
possa me trazer o que almejo.
4-
Ao assistir seu primeiro vídeo, e ao ver sua dança atual, percebo muitas
mudanças. Ao comparar suas fases na dança, percebemos uma evolução e, ao mesmo
tempo, uma necessidade constante de adicionar novos elementos em sua dança,
como passos do Ballet Clássico e posturas utilizadas no Flamenco. É
intencional? Você acha que é saudável utilizar passos de outras modalidades na
Dança do Ventre? Partindo disso, o que pensa das novas tendências: fusão de
diversos estilos – inclusive samba, na dança do ventre?
Penso que devemos
agir com muito cuidado , para não perder as raízes da dança. Sempre estudo o
tempo todo e percebo o que está acontecendo no mercado. Se na música que temos a
disposição há um toque de Espanha por exemplo, porque não reagir com algo que
lembre este país? Mas se não há nada que solicite esta manifestação, não há
porque utiliza-la
No caso da música clássica
oriental, mesmo nas bailarinas antigas podemos notar a influencia do ballet,
que na verdade nada mais é do que a dança acadêmica, que já existia no Egito
antes da corte francesa, contribuir para a fama mundial do ballet clássico.
Acho que as mudanças na
dança vêem de meu contato com professores e das aulas que faço sempre que
possível. O corpo recebe estas impressões que viram digitais, e vão aparecer em
forma de movimentos e expressão quando danço.
Não gosto pessoalmente de
muitas misturas, e acho que para tudo há um limite. A fronteira é algo difícil
de ser avaliado e estabelecido, mas luto por ela.
5-
Lulu, sua nova casa, Shangrila House, é um espaço maravilhoso (ainda não fui
pessoalmente, mas logo,logo estarei por lá). Para quem já leu ‘Horizonte
Perdido’, sabe de onde veio a inspiração do nome. Você tem esse sonho, do
elixir da juventude, da vida eterna, de um lugar paradisíaco?
O nome vem
exatamente desta idéia de morada dos Deuses. Meu sonho é que a casa se
transforme cada vezmais num lugar de bem estar, onde as pessoas se sintam bem,
que possam desfrutar da dança e da cultura. Que possam se encontrar apenas para
conversar, trocar impressões, comer algo, ou simplesmente relaxar.
Eu penso sempre em
alcançar a felicidade, do jeito que ela puder se mostrar para mim. Depois de
tantos intercursos na minha vida, ainda acredito que podemos sim, manter viva
nossa chama de criança, que é no final, o que nos faz sorrir, e aproveitar cada
dia. Quando nossa criança morre simbolicamente, ou nossa juventude nos
abandona, na alma e no rosto mostramos isso. O elixir da juventude está dentro
de nós, cada uma tem seu Shangrila particular, basta saber acessar, para poder
estar lá sempre que quiser.
6- Conte-nos um
pouco da experiência de viajar o mundo, conhecer novas culturas e observar as
diferentes constituições físicas das alunas, as dificuldades e facilidades na
dança são, também, regionais ?
Os países oferecem sim discrepâncias e
diferenças, culturais, sociais e corporais. Cada novo lugar, é um desafio, fico
nervosa, insegura, e pensando aiii, vai ver que esta é minha primeira e única
vez por aqui....Em cada país o clima, o relevo e a situação social das alunas
influencia no aprendizado, e na forma com que elas usufruem da dança. Em países
mais frios, é mais comum que a linha de movimentos seja mais reta, e a flexibilidade
sem dúvida, é um ponto a ser trabalhado intensamente. No Japão a concentração
das meninas em aula é impressionante, eu nunca vi um grupo tão interessado e
dedicado. Na República Checa, elas parecem brasileiras, um charme especial, e
um molejo difícil de explicar. É de fato uma colcha de retalhos e uma
experiência incrível ser convidada por estes lugares, para compartilhar um
pouco do que faço.
7- Lulu,
essa pergunta é muito pessoal, perdoe-me se vou ser desapropriada. Mas queria
saber sua opinião, apesar de você não estar mais na direção da Khan el Khalili,
queria saber sobre o padrão de qualidade da casa. Às vezes, tenho a impressão
de que ‘quem é da casa pode tudo’ em relação a inovações de trajes, dança,
shows. Nem sempre tudo é lindo ou de bom senso, na minha opinião, como já
disse. Ou, se eu estiver errada, realmente, quem é da casa pode tudo, porque
tem técnica a mais, uma certa ‘superioridade’ em relação ao criar e ousar? E
ainda: a Shangrila House pretende, com o tempo, ter seu próprio padrão de
qualidade?
Acredito de fato que as
bailarinas da casa acabem tendo uma liberdade maior nas inovações em virtude de
o fazerem lá dentro, no que chamo de ambiente seguro.
Não acho tudo lindo, e nem de bom
senso, e como qualquer pessoa também tenho minha própria opinião, mesmo porque
o grupo é muito grande, e não posso estabelecer um padrão que coloque todas as
pessoas no mesmo balaio, como dizia minha mãe.
Não acredito que quem é da casa pode
tudo, de jeito nenhum e nem podemos afirmar que todas as bailarinas tem a mesma
qualidade técnica. Humildade é uma das qualidades que temos que cultivar a vida
toda, sem importar a que tipo de atividade pertencemos, e isso elimina a
postura de superioridade...mas esta é minha opinião pessoal.
Por enquanto eu faço parte da banca da
casa, e enquanto os resultados forem transparentes, e eu acreditar na justiça
do processo, continuo.
Não sei se criarei um sistema ligado
diretamente a mim e a escola para analisar qualidade de dança mas com certeza
tenho um projeto neste sentido para a parte educacional.
8-
Dentre seus mestres e professores, por favor, eleja os cinco ‘top’ e o porque,
se isso for possível.
Vou tentar, são tantos importantes.
Vamos dizer que vou colocar aqui os mais marcantes, sem desmerecer todos os
outros professores e professoras, a quem devo absolutamente tudo o que sei.
1- Sherazade, minha primeira
professora, que plantou a semente da expressão e da paixão em mim. Nunca pude
esquecer seus olhos, e a entrega absoluta que apresentava ao dançar. A ela devo
minha conecção entre os sentimentos e os movimentos.
2- Farida Fahmy – uma rainha viva.
Altamente intelectual, solista do único grupo folclórico egípcio, viajou por
mais de 50 países, levando a graça e a arte de sua terra. Como professora, foi
a primeira a me dizer por onde deveria ler a música, me corrigindo e limpando,
quando eu já tinha 20 anos dançando. Sua generosidade e profundidade, me tocam
sempre, e é alguém a quem serei eternamente grata. Ela de fato se preocupa com
os rumos que a dança tem tomado nos últimos anos e se importa com as pessoas
que se importam
3-Shokry Mohamed- Não faz mais parte do
mundo dos vivos, mas a sua alegria e jovialidade vão estar para sempre
guardadas dentro de mim. Mesmo lutando contra um câncer que lhe retirou a fala,
nunca parou de dançar ou ensinar, um professor maravilhoso para folclore, a
alma do povo em forma de professor.
4_ Rakia Hassan, por ser uma pessoa
empreendedora, e forte que acabou criando uma das maiores manifestações
mundiais da dança com seu festival, que traz pessoas do mundo todo, para se
encontrarem na dança. A estrutura é monstruosa, e muitas de minhas amigas
do presente, eu encontrei em salas de aula dentro do festival. A ela devo minha
ida para o mundo. Também tenho a agradecer o convite para ensinar dentro do
evento, que foi muito importante para mim enquanto bailarina.
5- Gamal Seif – Depois de 24 anos
dançando ter a chance de ter um parceiro de dança com uma qualidade tão alta,
que me pergunto, aiiii será que dou conta? Um professor brilhante, dedicado,
ativo em todos os níveis. Artista criativo e com qualidade técnica
inigualável. A ele devo meu novo projeto de qualidade para a escola no próximo
ano, nossa parceria e o sonho realizado de poder aprender tudo o que quero e ter
ainda por cima, um parceiro no palco para compartilhar isso em forma de
performance.
9- A Dança, como tudo na
vida ,também sofre mudanças, adaptações, alterações. Em termos de técnica, você
descobriu alguma nova super dica para facilitar a vida das bailarinas, por
exemplo, em relação ao shimie ou algum outro ‘passinho’ da dança, ou dicas de
estudo, que poderia compartilhar conosco?
Descobri diversas coisas para
facilitar a vida, mas todas elas dependem de contato direto para poder
explicar. Acredito numa dança sensorial e física, com todos os nossos sentidos
envolvidos e tenho sim diversas novidades. Adoraria poder compartihar
escrevendo mas não me sinto em condições de explicar isso pela escrita mas
apenas pessoalmente, falando , experimentando, tentando juntas....
10- Lulu, seu momento atual-
futura mamãe – foi uma grata surpresa para todas nós. Conte-nos um pouquinho de
como está a gravidez, se já sabe se é menino ou menina e como é dançar, gerar,
conciliar mãe, bailarina, esposa, amiga, ufa, todos os papéis, sendo Lulu
Sabongi!
Conheci meu futuro marido trabalhando,
olha só como a dança me dá tudo??
Nunca imaginei que nosso encontro se
transfomaria numa parceria de almas, mas sabia que tinha sido muito especial.
Ele morava muito longe, e tudo levava a crer que seria impossível continuar.
Mas ele veio ao Brasil, amou nossa música, e nosso amor foi crescendo não muito
devagar....entre a primeira visita e a decisão de mudar sua vida, apenas nove
meses se passaram. Em dezembro de 2008, sabíamos que ficaríamos juntos, em
janeiro fomos surpreendidos pela descoberta da gravidez.
É uma menina, seu nome é Eva, e logo
logo, ela vai sair da toca.
É difícil conciliar tudo e sempre me
sinto em débito com uma lista enorme de tarefas que não consigo concluir. Me
sinto culpada por não conseguir responder a todos os emails, mas me recuso a
ter alguém que responda por mim. Tenho vídeos a serem assistidos e devolvidos,
há séculos comigo. Sou cheia de defeitos, esqueço chaves e papéis o tempo todo,
esqueço aniversários, um desastre como podem ver....
Mas estou feliz, amando, acreditando na
vida uma vez mais, com uma escola que esta´se concretizando dia a dia, um filha
por conhecer e outros 3 que já tem vida própria.
Sou mais uma mulher do mundo moderno,
doidinha e tentando se acertar a cada novo dia.
11- Um momento especial para
mim: ano passado, em Setembro de 2007, nos encontramos no aeroporto, lembra? Em
Congonhas. Estávamos na livraria e você segurava nas mãos o livro ‘A Menina que
Roubava Livros’. Mate minha curiosidade: decidiu compra-lo? O que está lendo
agora?E quais foram os livros que mais marcaram sua vida e porque.
Não comprei aquele, mas sou uma
rata de livraria, compro tanto livro que vou morrer sem ter lido tudo o que
adquiro. Estou lendo agora 3 livros diferentes, IBM e o Holocausto, talvez por
estar com um alemão, o tema tenha me ocorrido....O que esperar quando vc está
esperando ( sobre gravidez ) A estória secreta ( sobre um crime ocorrido dentro
de uma universidade, envolvendo um grupo seleto de estudantes de grego
clássico) e um quarto que apenas comecei – Quem somos nós?
Um livro que me marcou profundamente e
foi sugerido por uma amiga querida, é Mulheres que correm com os lobos, este eu
guardo na cabeceira e vivo relendo partes, para me lembrar de quem sou como
mulher e do lado instintivo que nunca devemos esquecer.
O pequeno príncipe, foi importante
quando li, O presente precioso, um livro muito pequeno mas com uma mensagem
importante. El cielo protetor, a versão em Espanhol, do Céu que nos protege, um
filme decisivo na minha vida....tem tantos , podia ficar aqui falando um
tempão....
12-
Lulu, você conquistou um status no mundo da dança, que com certeza também tem
seus ônus. Como você se vê daqui a alguns anos? Novos projetos em vista? Quais
novidades pode adiantar e diga o que esses anos todos dançando ensinaram a
você.
O ônus, como vc mesma diz está
ligado a cobrança das pessoas. Muitas imaginam que sou um personagem, e
esquecem que sou uma pessoa comum, cheia de medos, alegrias, e
intempéries....acho que esse ônus é o mais dificil de se carregar.
Penso em envelhecer dançando e
ensinando. Tenho um projeto de um curso de longo termo contando com a presença
de Gamal, para abarcar uma lista enorme de conhecimento envolvendo tudo
relacionado a folclore, música, estilos, iluminação teatral, conteúdo cultural,
e técnicas de apoio para o desenvolvimento da dança oriental, começando em
2009. Um livro, sem data, mas que vai sairrrrrrrrrrrr, e ter saúde para
fazer tudo o que quero.
Estes anos dançando me ensinaram, que
os limites existem para que tentemos ultrapassá~los, que a vida só vale a pena
se é vivida, e que se esconder quando estamos tristes, não traz nada de bom e
ainda rouba um montão de energia.
Então
o caminho é continuar, dançar, se expor, chorar , rir e viver...da melhor forma
o tempo que nos resta ser vivido.