MARIANA ROCHA



 

1-    Mariana, o que me fez procura-la para a entrevista, foi o seu trabalho de conclusão de curso da Graduação de Comunicação das Artes do Corpo com formação e habilitação específicas em Dança, pela PUC. Fale sobre como surgiu esse tema para conclusão do curso.

O tema da minha monografia “Entre o Sagrado e o Profano: A Dança do Ventre e um possível diálogo com o corpo contemporâneo”, surgiu a partir de uma necessidade pessoal de exploração e compreensão dos contextos históricos da dança, seus simbolismos tanto no seu “inicio”, quanto no momento atual. Exploro o dualismo sagrado profano, abordo relações das danças sagradas da bíblia, as representações com o feminino. Esse trabalho todo, como disse anteriormente, surge da minha necessidade pessoal, com bailarina e professora de Dança do Ventre há quase 11 anos, de compreender de forma analítica, através da pesquisa dentro dos padrões universitários, o poder dos simbolismos do feminino na psique humana. Como algo que nasce e cresce há tantos e tantos anos, pode ainda, influenciar da maneira que a dança do ventre influencia, tanto no comportamento das mulheres que a praticam, como nos seus corpos.

2-    Lulu Sabongi, ícone da Dança do Ventre em nosso país, estava na banca.Como foi a sensação de apresentar um trabalho para acadêmicos e para alguém ‘de fora’, mas expert no tema, como Lulu?

Uma emoção indescritível, que começou a partir do momento que Lulu aceitou o convite para integrar a banca. Após ela ter aceitado, admito que se antes eu estava estudando e pesquisando demais, depois então, você só me encontrava na biblioteca da faculdade devorando pilhas de livros horas e horas seguidas! Sempre fui muito esforçada, mais sinceramente não lembro de ter dado tanto o máximo de mim antes... Algumas noites eu nem conseguia dormir, tamanha ansiedade, só estudava e estudava! O dia da banca foi extremamente especial, não só para mim, mais para todos presentes; as bancas na PUC são abertas à quem queira assistir, então convidei algumas pessoas queridas. A minha emoção ao discutir questões relacionadas a nossa arte com Lulu, foi tamanha que não contive as lágrimas em vários momentos. Eu falava, discursava, explicava as questões, as relações do trabalho, mais as lágrimas caiam dos meus olhos. Lulu foi excepcional, como sempre. Após a banca revelar a nota, eu pulava, chorava, de alegria, e Lulu se emocionou também, de uma maneira tão sincera, acabou que todos os presentes choraram! Isso porque na PUC um trabalho de conclusão de curso tem dois destinos: se tirar nota máxima vai para a biblioteca da universidade e fica disponível para todos; se tirar nota abaixo de 10, vai para a sala da coordenação do curso, e acaba que quase ninguém tem acesso. E eu queria mais do que tudo que o trabalho fosse para a biblioteca, a minha intenção era integrar no contexto universitário um trabalho sobre nossa arte, e quanto mais pessoas pudessem ter acesso ao mesmo, melhor!

3-    Você é colunista da revista Shimmie, lançada recentemente para o mercado da Dança Oriental. Como foi esse convite para trabalhar na equipe da revista e como tem sido a experiência?

Foi totalmente inesperado! Uma grande surpresa mesmo! O telefone da minha casa tocou, e uma voz doce pediu para falar comigo, era Rhazi Manat redatora da Shimmie, a revista ainda era um projeto, e eu me apaixonei. Sempre idealizei uma revista para o nosso meio que priorizasse o conteúdo informativo, mais parecia um tanto utópico (pelo menos na época que eu imaginava algo assim há uns bons anos atrás), hoje percebo a sede de informação das praticantes de dança do ventre, e isso me deixa muito feliz, pois valoriza todo o meio.

A experiência tem sido maravilhosa. A Revista Shimmie conta com uma equipe de primeira, em todos os sentidos, tanto o profissional, como o pessoal, são pessoas realmente especiais, com o olhar para frente. Quando nos reunimos para a foto capa, com todo os colunistas, foi um momento único, todos super envolvidos no projeto, equipe e colunistas juntos trocando idéias para fazer da revista um sucesso.

4-    Fale um pouco sobre o seu trabalho relacionado à Dança, em São Paulo, como professora, bailarina, coreógrafa e pesquisadora.

Estudo a Arte da Dança do Ventre há mais de 10 anos, e ministro aulas há quase 7. Atuo tanto com bailarina, professora e coreógrafa, quanto como pesquisadora. Participei de diversos concursos como jurada, e de festivais ministrando workshops. Nos últimos 2 anos, trabalhei muito com aulas particulares para professoras, bailarinas e profissionais de dança do ventre, ministrando principalmente os temas: anatomia, fisiologia, cinesiologia, psicologia, história da dança, técnicas para improviso, criação, leitura musical, entre outros, voltando sempre o foco para dança do ventre. Periodicamente sou chamada para prestar auxílio coreográfico, tanto para professoras, bailarinas, quanto grupos. Por questões éticas não posso citar nomes, mais dois grupos conhecidos ganharam importantes concursos com o auxilio prestado. E fico feliz vendo o resultado do meu trabalho, indiferente de poder ou não divulgar algo que fiz ou que contribui intensamente.

Sou colunista da Revista Shimmie, algo que me enche de orgulho e alegria. Sou graduada em Dança pela PUC, e faço pós-graduação em Dança também, nunca me dou por satisfeita sabe, gosto muito de estudar, procuro sempre fazer aulas, workshops tanto de dança árabe, como de outras modalidades de dança também, e tenho plena ciência de que tenho muitíssimo ainda para aprender...

Atualmente, ministro aulas em duas escolas especializadas em dança do ventre na zona sul de São Paulo. Gostaria de dizer, que amo muito o que faço, muito mesmo. Se tem algo que enche meu ser de alegria e realização plenos, é dar aula, estudar e dançar!

5-    Quais bailarinas você estuda e admira e por quê?

Admiro demais todas aquelas que vieram antes, dedico a elas tanto respeito como um sentimento carinhoso de gratidão. Porque elas não só semearam a dança, mais abriram caminhos, realizaram coisas importantes, e fizeram nosso meio crescer lindamente.Shahrazad Shahid Sharkey, que nos trouxe a técnica da dança, e ensinou importantes profissionais, as quais nosso meio não seria o mesmo. Todas que fazem parte do inicio da arte no nosso país Samira, Najua, por tudo que disse anteriormente, admiro-as.

Admiro demais Lulu Sabongi, demais mesmo. Acho-a integra, honesta, verdadeira, guerreira. Não só a admiro como bailarina e professora, mais como mulher. Ela é uma estudiosa, é inteligente, é culta. Para mim, essas são qualidades indispensáveis tanto para uma pessoa, quanto para uma bailarina. Ela faz parte da história da dança do ventre no nosso país, a partir dela, do trabalho dela, a dança evoluiu demais aqui. Muitas e muitas renomadas profissionais vieram a partir de suas mãos. E na minha opinião, não devemos jamais esquecer disso. É louvável, e devemos muito à ela. Muito respeito, principalmente; e à todas que vieram antes de nós, tem tantos nomes, citei alguns, mais o que escrevi é o que penso e sinto, em relação à todas as bailarinas que tiveram presença lá no comecinho da dança do ventre no Brasil. E a todas que hoje batalham lindamente para o desenvolvimento da dança.

Estudo muito as egípcias, mais também me mantenho aberta aos estilos das americanas, das argentinas... Alguns nomes que eu estudo, são: Samia Gamal, Naima Akef, Najwa Fouad, Suhair Zaki, Raqia Hassan, Randa, Mahmoud Reda, Faten Salama, Lulu Sabongi, Soraia Zaied, entre tantas outras que não caberia aqui !!!

Gosto muitíssimo, e procuro estudar bastante o estilo de dança do ventre mais clássico. Identifico-me mais. Por isso venho estudando muito, há algum tempo, uma bailarina super importante no nosso meio, que contribui lindamente para o crescimento e desenvolvimento da Dança do Ventre tanto no Brasil quanto no mundo, a bailarina Amara Saadeh da rede de escolas Luxor. Admiro muito ela, muito mesmo, seu estilo, sua dança, acho-a extremamente feminina e delicada ao dançar, gosto disso sabe, é o que realmente me inspira a estudar alguma bailarina, suavidade, delicadeza, graça, técnica e feminilidade.

6-    Nesses anos atuando na área da Dança, houve algum momento crucial em que você pensou em desistir? E da mesma maneira, houve algo que te incitou a seguir em frente?

Não me lembro de nenhum momento que pensei em desistir, mais me lembro de momentos bem difíceis sim. Mas mesmo nos momentos mais desesperadores, nunca, em nenhum segundo sequer, passou pela minha cabeça desistir, nunca mesmo... Acredito muito na dança. No seu poder transformador. Acredito muito no que faço, no meu trabalho sabe, acredito muito mesmo, não estou de maneira nenhuma querendo dizer nada diferente do que escrevi, eu acredito e só, sei que tenho muitíssimo a melhorar e aprender, não estou falando acreditar num sentido diferente, sabe, espero que não me entendam mal, como já disse sou uma pessoa sensata em relação ao meu lugar, sou apenas uma criança ainda em relação à dança, um bebe, mais um bebe que acredita muito, e é desse acreditar, que vêm à força diária para levantar da cama, trabalhar, estudar, dançar... Eu estudei tanto, tanto, e ainda estudo mais um tantão, e ainda vou estudar tanto, sei lá, o estudo me traz uma certa sensação de segurança. Não estou falando aqui de estudo de treinos, ensaios, que são sim de extrema importância, e aos quais me dedico pra caramba também; mais neste momento estou me referindo ao estudo universitário mesmo...

Sabe, tem algo que preciso muito dizer, que é o que me incentiva demais a seguir em frente, são minhas alunas... O carinho delas, ver os olhos delas brilhar, ver que estão felizes dançando, que estão se divertindo, é escutar de uma aluna que morria de cólicas dizer que já não sente mais dores como antes de praticar a dança, ou ver a vaidade, a auto confiança crescendo em outra... Mesmo nos pequenos detalhes, ver que uma aluna que não se olhava tanto, que não se cuidava sabe, ver que ela passou a se cuidar mais, a se amar e valorizar... Isso me faz chorar... Me emociona... Me toca profundamente... Ver como esta Dança atua na vida das mulheres, é em fim, algo impressionante, (ai Lú, to chorando só de escrever isso...). São tantas e tantas histórias, uma mais linda que a outra, mais emocionante, do quanto esta dança transforma as mulheres, suas vidas, é o que me faz seguir em frente, sem ligar para comentários quando estou em um grupo que não tem nada a ver com o meio artístico por exemplo, onde sempre tem quem ache bacana, e sempre tem que olhe torto pra gente... faz parte!!!

7-    Para você, quais itens são essenciais para uma dança de qualidade e emoção?

Sentimento. Alma. Entrega. Técnica.

Ouvir a música, mas mais, deixar que ela entre por seus ouvidos, e saia por cada poro do seu corpo... Sentir o que a música transmite, e entregar-se totalmente a ela... Independente da característica de dança mais “show”, ou “palco”, mais fazer visível seu sentimento em relação à música, não só torna-la visível como diz Balanchine, mais tornar visível ou perceptível o seu sentimento em relação à música ao dança-la. A ponto de confundir o espectador, de ele perguntar-se: mais da onde está vindo a música? Dos músicos, dos instrumentos? Ou do corpo, da alma da bailarina? E acaba sendo um grande desafio, não é mesmo, para tudo na vida, para a dança, para o amor... essa total entrega.

 8-    Mariana, obrigada por conceder a entrevista. Sucesso a você, sempre! Utilize este espaço para falar sobre o que desejar. Obrigada!

Agradeço o espaço que está me dando, essa oportunidade de falar um pouquinho sobre meu trabalho, meus pensamentos... Agradeço desde já aos leitores que dedicarem um pouco do seu tempo para ler as idéias de uma menina bailarina. Espero sinceramente que gostem, espero feedbacks também, porque sou um ser em aprendizado constante e adoro receber criticas!!!  Agradeço muito o carinho que recebo de tanta gente, que me escrevem e-mails e pelo orkut também.

Agradeço todas as pessoas especiais que conheci e conheço através da dança, e aproveito o espaço para fazer um agradecimento mais do que especial para a minha queridíssima dona Arlete e a Chris, do Ateliê Arco-Íris, que sempre acreditaram no meu trabalho, e que fazem com tanto amor os meus véus...

Queria agradecer todos aqueles que fizeram parte do meu aprendizado, da minha história, meu percurso na dança, mesmo os que me deram 1 aula, até os mestres que permaneceram por anos comigo, o tempo passa, muitas coisas mudam em nossas vidas, mais o amor que sinto por meus mestres, ficara para sempre em meu coração.

Agradeço também, meus atuais chefes... Meu diretor, minha coordenadora, minha chefinha linda.

 Um beijo enorme com muito carinho gente! Obrigada!

 


 
Entrevista realizada no ano de 2010