1- Roberta,
além de diretora do Ayuny, você dá aulas de Dança do Ventre, é Antropóloga e
desenvolve pesquisa para seu doutorado sobre a difusão da dança do ventre no
Brasil. Como é lidar com tantas responsabilidades?
Gostaria de dizer que tiro de letra, mas a verdade é que tem sido uma
experiência de malabarismo. Pesquisa acadêmica requer bastante dedicação, o que
se mede, no mais das vezes, pelo tempo livre dedicado à leitura descompromissada
de documentos e livros. Escrever com um olho no relógio e outro no processador
de textos é uma receita para travar a criatividade. Por isso procuro dividir
minha semana em dias dedicados à dança e dias voltados para os estudos. Se
precisar sair de casa para dar aula ou resolver questões administrativas, não
rendo sequer um parágrafo. A vantagem é que as atividades convergem: dentro do
Ayuny posso seguir observando e tomando notas para a pesquisa; esta, por sua
vez, ajuda a trazer para o estúdio uma perspectiva mais ampla sobre a dança,
enriquecendo a proposta pedagógica e cultural do Ayuny.
2- O
fato de ser uma pesquisadora e ter formação em Antropologia modificou sua
didática em aula? Fale um pouco sobre a importância do estudo acadêmica para a
professora (se você acha necessário)
Comecei a dar aulas logo após a
graduação. Não acho que, à época, a formação tenha tido um impacto muito grande
na didática – como já comentei em fóruns e no meu blog, sou eternamente grata
às minhas primeiras alunas, que devem ter sofrido, coitadas, já que a
professora se forma com o tempo, à medida que entra em contato com outras
colegas e alunas. Sempre procurei responder às questões das alunas
coerentemente com minha formação, isto é, evitando especulações, os populares
“achismos”. Atualmente sinto-me bastante mais segura para informar as alunas,
mas evito sociologizar demais em sala de aula; procuro informar brevemente
sobre algum tema e espero que as alunas questionem por vontade própria. A
partir da curiosidade e interesse delas, ajudo a encontrar as respostas.
Não acredito que curso superior seja um
pré-requisito para o ensino da dança do ventre. Entretanto, é essencial que a
professora de dança busque informações em cursos e aulas com pessoas que
aprenderam a pesquisar. É muito difícil conseguir boa informação em uma busca
aleatória no Google, por melhor que seja a intenção da professora, daí a
importância de consultar as fontes de pesquisa. Atualmente vemos crescer no
Brasil o interesse acadêmico pela dança do ventre. Há pesquisas realizadas no
campo da educação física, da educação propriamente dita, das artes, da
história... E há uma bibliografia boa – ainda que pequena – de pesquisas
realizadas em outros países. Muitos bons artigos, algumas teses em alguns
poucos e bons livros podem ser encontrados em inglês e francês, línguas às
quais muitas de nós temos acesso. É raro, todavia, conseguir reunir boas fontes
se você não foi educada para a pesquisa.
3- Em
seu blog há alguns videos de homens que dançam a dança do ventre, um assunto
polemico, às vezes. Como pesquisadora, você tem novas informações que possam
modificar os parâmetros atuais (de que homens só dançam o folclore) o que teria
a dizer sobre isso?
Podemos olhar para essa questão a
partir de diferentes ângulos. Ofereço duas perspectivas a partir das quais
podemos começar a pensar a dança do ventre executa por homens.
a) Em primeiro lugar, acredito
que a dança seja uma linguagem. Como tal, os corpos podem ser indiferenciados,
ou seja, apenas um aporte para a fala coreográfica. Simplificando, é o seguinte:
qualquer pessoa pode dançar. Isso é uma leitura mais politizada da dança e,
claro, é uma opinião minha, evidentemente não compartilhada pela maioria da
comunidade brasileira de dança do ventre.
b) Por outra perspectiva, podemos
observar em vídeos caseiros - disponíveis em portais de vídeo como o YouTube –
que os movimentos realizados pelos homens em celebrações casuais não diferem do
repertório coreográfico de base da dança do ventre. Oitos, camelos, básico
egípcio, suaves shimmies de ombros... tudo está lá, na dança de homens comuns.
O que difere é a dança de palco. Homens dançaram sobre palcos em diferentes
ocasiões das histórias egípcia, turca, marroquina, argelina, grega. A
trajetória da dança masculina sofreu muito com o processo colonial; podemos, de
acordo com alguns pesquisadores, entre eles o cipriota Stravos Karayanni,
creditar o atual preconceito contra a dança de palco masculina ao olhar
negativo dos colonizadores europeus. Não se deve ignorar também a onda de
conservadorismo que se abate, desde os anos 1970, pelo menos, sobre boa parte
do globo e, em especial, sobre os países muçulmanos.
Além do mais, por que não? Creio
que essa rejeição reflete os padrões sociais vigentes, enfim.
4- Quais
bailarinas na sua opinião, devem ser ‘objetos de estudo’ e por que?
Qualquer bailarina que capture seu
olhar, para bem ou para mal, deve ser objeto de sua atenção. Se não gostamos da
performance de uma artista, devemos olhar cuidadosamente para que possamos
identificar os pontos dissonantes de modo a evita-los ou desconstruir a
evitação. Às vezes não gostamos do que não entendemos e rejeitamos, no ato, uma
performance que pode inspirar novas abordagens na dança.
Em se tratando de bons exemplos, creio
que não devemos nos esquivar dos clássicos: Suheir Zaki e sua extraordinária
leitura musical e equilíbrio entre leveza interpretativa e firmeza de execução
deveria ser sempre abordada por professoras; Naima Akef também é essencial em
tempos de Randa Kamel – as elevações de perna e marcações precisas podem ser
conferidas em vídeos bastante anteriores.
No Brasil, gosto do estilo da Polimnia
Garro, que trabalha os movimentos impactantes da dança libanesa com a
delicadeza que tanto agrada aos expectadores brasileiros. Lulu Sabongi é um
exemplo para qualquer professora que queira aprimorar sua técnica pedagógica:
trata-se de alguém que de fato leva a sério o ensino da dança. Maira Magno
também merece estudo pela naturalidade com que “entra na pele” da bailarina
árabe. Soraia Zaied, sem dúvida, é uma bailarina de técnica apuradíssima. Há
muitos bons modelos no Brasil.
5- De
algumas dicas sobre a produção de espetáculos. Como é dirigir e participar ao
mesmo tempo?
É, no mínimo, estressante. Não posso
dizer que consegui já equilibrar as funções de diretora e bailarina. Sempre
fico sem bijoux ou falta alguma coisa na roupa. Da última vez, consegui a
façanha de subir ao palco para meu solo apenas com brinco, sem pulseiras, anéis
e tornozeleira, adorno de que tanto gosto. Tudo porque, além do meu solo, dancei
na abertura, com todas as professoras. Foi bacana, mas deu uma penalizada no
solo. Orgulho-me, no entanto, de conseguir balancear a função de professora –
dando suporte emocional e prático às minhas alunas antes da entrada em cena –,
de diretora da escola – apoiando e incentivando toda a equipe e cuidando de
todas as alunas da escola para que tenham um momento maravilhoso – e de
diretora do espetáculo, cuidando dos detalhes sem deixar cair o walkie-talkie!
^_^
Nesse vai-e-vem de funções ainda tenho
muito a aprender. Por ora, fico felicíssima por conseguir produzir a dança do
ventre, mantendo o show em alto nível.
6- Morar
e trabalhar em Brasília: dificulta ou é o mesmo que no eixo Rio - São Paulo em
termos de estrutura, prestadores de serviço e etc ? Como é a aceitação da arte
no distrito federal? Fale um pouco sobre isso, se existem diferenças
territoriais e culturais.
Não sei ainda; depois do trabalho de
campo posso ter uma resposta mais segura. Tenho a impressão de que trabalhar
com dança do ventre é difícil em qualquer lugar. Brasília é uma cidade bastante
complicada para manter um negócio do gênero: ainda que seja a capital do país e
tenha traços muito cosmopolitas, é pequena. Temos várias profissionais de alto
nível na cidade e a competitividade entre estúdios é considerável, o que, por
um lado, tensiona muito a realização de qualquer evento e, por outro, nos
empurra adiante, à procura da excelência. É também uma cidade difícil pela
carga de impostos altíssima e alto custo de vida. Também é uma característica
que pode ser vista por dois lados: enquanto o custo do negócio aumenta, também
é grande a procura por shows e aulas. A dança do ventre é muito presente na
realidade brasiliense, talvez pela configuração bastante diferenciada da
população: há gente de todos os estados e de diferentes culturas na cidade.
No entanto, vejo que ainda nos
mostramos muito dependentes do padrão de dança realizado pelos grandes centros
de São Paulo. Há constantes workshops com profissionais daí, mas as poucas
oficinas com profissionais locais fazem sucesso. Acredito que, por todo o
Brasil, haja profissionais tão criativas ou tecnicamente qualificadas quanto as
de São Paulo, mas os mercados locais não parecem se bastar. Receber novidades é
sempre positivo; entretanto, é necessário também que se reconheçam talentos
locais.
7- Você
iniciou seus estudos em 1996 e fez aulas com grandes bailarinas, além do musico
Mahmoud (que eu adoraria conhecer!) Conte-nos da importância do aprendizado com
um musico e que sugestões você daria para a bailarina que não tem condições de
estudar com um musico; como estudar os ritmos e possibilidades sonoras da
musica oriental?
As aulas com Mahmoud foram essenciais
para minha formação. Quando comecei a ter aulas com ele, eu realmente acreditava
que sabia ouvir a música. Não sabia nada. Ouvia somente a melodia principal e
as marcações mais exuberantes. Depois, ao casar com um músico, pude perceber
quão complexa é a composição musical e o quanto temos a aprender. É essencial
ouvir Música, não apenas a árabe. Observar detalhes percussivos e contrapontos,
para além do que captura imediatamente os ouvidos. É importante ouvir a música
como um todo, mas também perceber as camadas sonoras: há a base (ritmo), a
melodia, os contrapontos, o arranjo. Ritmo é apenas uma pequena parte, mas uma
boa dica é ter gravações do ritmo puro (há várias compilações disponíveis, com
a da série Jalilah, a do Mario Kirlis e a do Hossam Ramzy) e, ao ouvir uma
música que te agrada, anotar o padrão rítmico e comparar. Aos poucos a gente
vai se familiarizando com os sons.
8- Não
sei se você já pode comentar algo sobre sua tese, mas como tem sido a difusão
da dança do ventre no ocidente? Fiquei curiosa a respeito do tema, o que
poderia adiantar em primeira mão para o site ‘A Bailarina’?
Difícil
resumir, mas bora lá: é um exercício necessário! A dança do ventre, como várias
outras práticas corporais de espaços colonizados – a yoga e a capoeira, por
exemplo – é praticada por muita gente em quase todos os continentes, daí a
importância de olhar detalhado sobre sua difusão. O processo de difusão da
dança passa pela história recente do Egito, com as colonizações francesa –
responsável por difundir a dança na Europa através do nome pelo qual até hoje a
dança é chamada: danse du ventre, além de instá-la em narrativas
textuais e artísticas – e inglesa, responsável pela censura da dança, pelas
representações mais agressivas, além da representação narrativa. Há também,
posteriormente, importante contribuição de norte-americanos no formato e
figurino da dança. A dança que praticamos hoje é resultado direto da política
colonial européia. A difusão direta para o chamado Novo Mundo ocorreu de
maneira mais complexa, com feiras mundiais e representações no mais das vezes
fantásticas. No Brasil, temos a referência de Sheherazad apresentando-se no
programa de Agnaldo Rayol, com Hebe Camargo, com a “Dança da Cobra”. Lembro-me
de, em minha infância, ficar fascinada com a apresentação de uma artista
virando moedas no programa de Sílvio Santos. Ou seja, a referência é flutuante
e não diretamente se relaciona ao ambiente social de origem da dança. Isso
ocorre ainda hoje, ainda que tenhamos um ambiente social e virtual
absolutamente diferente do que havia no Brasil dos anos 1970 e 1980. Vemos que
as bailarinas e estudantes optam por focar sua atenção mais em imagens elusivas
a um oriente fantástico, romântico ou ousado (como nas performances da
argentina Saida) do que na realidade árabe. Ficou confuso? É complicado
comprimir tudo em um parágrafo. Tomara que faça sentido.
9- Houve
um assunto relacionado a plágio, ha algum tempo, que envolveu um artigo seu. Se
puder falar sobre isso, gostaria de saber como se encontra a situação. Fale um
pouco sobre o que pensa dos espaços virtuais como blogs e sites, que nem sempre
são confiáveis.
Este é um dos episódios mais
constrangedores da dança do ventre no Brasil, acredito. Trata-se de um nome
conhecido que descuidou desastrosamente de sua imagem. Não publiquei a
vergonhosa resposta via e-mail que recebi após o contato de minha advogada –
hostilizada pela senhora em questão, que só parou de atacar quando minha
advogada a alertou quanto aos riscos que os insultos acarretariam. Registrei um
boletim de ocorrência do tipo criminal na Delegacia de Falsificações e
Defraudações da Polícia Civil do Distrito Federal (ocorrência nº 81/2009-0).
Essa história, cansativa e deprimente, segue o caminho de qualquer outro
processo por plágio. A legislação brasileira ainda se prepara para o combate
aos crimes cometidos via internet, mas sou bastante confiante no interesse do
poder judiciário em regular tais atos mais efetivamente. Lamentavelmente muitas
pessoas ainda acreditam que a internet é terra de ninguém, desautorizando
autores que investiram intelectual e socialmente em sua produção.
Quanto à informação disponibilizada na
net, acredito que seja sempre bom pesquisar antes de confiar e reproduzir
dados. Há espaços virtuais sérios e direcionados, convivendo com blogs de
pesquisadores amadores. No campo da dança do ventre a informação enviesada é
regra. Todavia, ressalto a importância de sites que oferecem informações
majoritariamente confiáveis e opiniões interessantes, como o shira.net e o
gildedserpent.com.
10- Roberta,
assim como você, eu também tenho meu próprio estúdio. As vezes percebo que a
arte nem sempre é primeira opção, por exemplo, quando a crise aperta, os pais
tiram o filho da dança, mas deixam no curso de inglês. Quais perspectivas você
tem em relação a rotatividade de alunos, você teria alguma dica dirigida a
empresarias ou autônomas? Como entende essa questão da arte como opção e não
necessidade, que por vezes pode ocorrer?
Lu, ao
contrário do Mosaico, que oferece também cursos de música, o Ayuny – que em
junho completa 10 anos de pura dedicação à dança e ao bem-estar das mulheres em
geral – foi construído como um estúdio voltado para o ensino da dança do
ventre. Durante anos esse enfoque funciona muito bem, em se considerando que o
estúdio foi fundado no auge do sucesso d’O Clone. O interessante a se observar
é que o interesse pela dança do ventre não passou com a novela. Há um fluxo
constante de mulheres que querem aprender a dança. Ou seja, dança do ventre não
é um modismo; a novela fez florescer um mercado que posteriormente se
solidificou. Tentamos várias vezes (eu e Alexandre, meu sócio, que também é
músico) ampliar a atuação para outras atividades, como alongamento consciente e
yoga, com resultado tímido. Mas não vamos desistir, pois nosso foco é o corpo
em movimento – e isso interessa também à aluna de dança do ventre e não entra
em conflito com a vocação do estúdio.
Creio
que a maior parte dos empresários do campo da arte e cultura sofrem com a
questão da arte como opção. Vejo muitas alunas abrindo mão das aulas para
estudar para concursos, por exemplo. Ainda que a dança figure entre as melhores
alternativas para o bem-estar – campo de atuação administrativa em alta – ainda
fica atrás das práticas de eficiência física imediata, como as academias de
ginástica. Evidentemente um reflexo do espírito de nosso tempo, a pressão por
um corpo malhado e definido se sobrepõe à busca do bem-estar de simplesmente
ouvir uma bela música e interpreta-la com o corpo.
11- Roberta,
muito obrigada pela entrevista. Fico feliz com sua participação pois você
sempre se coloca de maneira sensata e com argumentos. Deixe sua mensagem para
nossas leitoras.
Um abraço!
Agradeço
muitíssimo a oportunidade de expor aqui minhas idéias. Bora seguir dançando e
mostrar que a dança do ventre merece muito respeito e admiração!