1- Shaide, conte como
começou sua caminhada na dança e por que a Dança Tribal é tão apaixonante.
Comecei a dançar ainda criança,
quando ingressei no ballet clássico aos 5 anos de idade. Inicialmente minha
trajetória seria essa, já que pratiquei essa modalidade até os 22 anos. Mas, no
meio do caminho, como é comum acontecer com quem estuda ballet e participa de
festivais e show de dança em geral, fui tomando contato com outras danças e me
apaixonando por cada uma delas. Primeiro o jazz, depois a dança afro, em
seguida o estilo tribal, depois a dança do ventre, a dança indiana e por último
o flamenco.
2- Shaide, quando participei do seu
workshop, recentemente, algo que me impressionou foi sua resistência física,
principalmente devido ao trabalho de braços da dança tribal. Dê algumas dicas
para nós, bailarinas, que mal conseguem dançar uma percussão de mais de 3
minutos sem ‘arfar’ (meu caso!...rs)
Acho que resistência tem relação
direta com a prática. Condicionamento físico é algo que vem com o tempo de
treino diário que cada um dedica à dança. Eu tenho uma carga horária semanal de
aulas bem puxada. Dou cerca de 23 a 25 horas de aula semanalmente. Além disso,
pratico cerca de 2 a 3 horas por dia.
No caso do trabalho de braços, como a
postura do tribal requer mesmo uma certa força, também recomendo treino. Um
pouquinho por dia. A cada dia seu corpo vai conseguindo superar aquela etapa,
os movimentos vão se tornando mais fáceis, aí a gente aumenta um pouco mais o
tempo de treino e permanência na postura.
Costumo frisar para minhas alunas
que NUNCA mantenham um trabalho de tribal executando o trabalho postural de
forma errada. Quando o cansaço chega, é melhor dar uma relaxada nos braços e
manter o treino dos movimentos de quadril, para evitar condicionar o corpo na
postura errada, mantendo os braços caídos, pois isso se torna um vício e fica
mais difícil depois corrigir a postura inadequada. Melhor ir devagar e
sempre...um passo de cada vez.
3-
Cite algumas dicas para ter um quadril molinho,soltinho.
Eu passo em aula alguns
exercícios que, se treinados com regularidade, facilitam a soltura do quadril.
Outra coisa que ajuda muito é alongar. Quanto mais alongado está o seu corpo,
mais solto ele fica, mais maleável e, por conseqüência, mais fácil realizar
qualquer movimento com ele. Isso é algo que trago do ballet e que comprovo na
prática.
Muitas vezes a bailarina insiste em
praticar exaustivamente um determinado movimento, mas esquece de avaliar qual a
musculatura envolvida naquele trabalho. E o músculo, sem o devido alongamento,
não trabalha da forma ideal.
Para o quadril, vai um bom
conselho: não basta ter joelhos e quadris ágeis. É importante ter a musculatura
que executa esse movimento bem trabalhada. Fortalecer os músculos da coxa
(quadríceps) e ter bom alongamento dos músculos da virilha (adutor e sartório).
Com essa musculatura alongada, fica bem mais fácil a movimentação de quadril.
4-
A Cia Halim completou cinco anos e lançou um dvd belíssimo, com patrocínio inclusive
do Banco do Brasil. Fale um pouquinho da história da Halim e das
dificuldades/facilidades em ter uma Companhia de Dança em nosso País.
A Halim nasceu por mero acaso.
Éramos um grupo de dança do ventre. Eu já estudava o Tribal há muitos anos (na
verdade, meu contato com o Estilo Tribal é anterior ao meu ingresso na dança do
ventre). Em 2001, resolvi mostrar um pouco do que era o Tribal para algumas
alunas e montamos uma coreografia para uma apresentação de fim de ano da
escola. Nessa apresentação, meu ex-marido, Fernando Reis, que já atuava
há muitos anos na área de produção artística para teatro e dança, estava
presente e ficou encantado com a proposta do Tribal. Uma semana depois nós nos
reuniríamos para dar início a um trabalho mais sério, focado exclusivamente do
Estilo Tribal.
Nesses anos (já estamos na
batalha há 6 anos), é claro que passamos por muitas dificuldades. Como o
patrocínio não é praxe no Brasil, exceto para grandes cias de dança
contemporânea, fizemos tudo com muito trabalho. Além das dificuldades
financeiras, enfrentávamos, na época, o desconhecimento do público
brasileiro sobre o Estilo Tribal, o que muitas vezes nos levou a pensar em
descontinuar o projeto. Mas como dizem por aí, brasileiro não desiste nunca, e
seguimos adiante, conquistando nosso espaço gradativamente.
O que é mais gratificante é ver
que, para muitas pessoas, o primeiro contato com o estilo tribal foi justamente
por meio do nosso trabalho. E nesse período, nós pudemos nos empenhar em
desenvolver um estilo próprio, sem seguir as fórmulas prontas do Tribal
norte-americano, dando uma cara totalmente brasileira a uma dança que já é uma
verdadeira salada cultural.
5-
Sua compleição física difere da maioria ‘magra’ de bailarinas, o que não
interfere em nada na sua performance, aliás, você é uma das bailarinas que têm
os movimentos de braços mais impecáveis que já vi e seu quadril tem uma
agilidade e elegância que deixam qualquer um boquiaberto. Fale um pouco sobre a
industria da magreza ou exigências de mercado para bailarinas e se em algum
momento isso te desanimou.
Eu posso dizer que sempre fui
fora dos padrões. Nunca, com exceção da infância, fui magra. Já fui mais gorda,
menos gorda, mas nunca magrinha. Se eu tivesse que desistir da dança por esse
motivo, nem começaria, já que fiquei por anos no ballet clássico. É claro que
eu tinha total consciência de que jamais seria bailarina clássica com o meu
biotipo. Mas o que eu queria mesmo era dançar, aprender ,praticar, independente
de ter isso como uma profissão futuramente.
Quando tive meu primeiro contato
com a dança do ventre, em 1994, ainda diziam que essa dança era ideal para as
mais cheinhas e, claro, isso me estimulou a continuar a prática e, anos depois
me profissionalizei nessa modalidade. Mais adiante vi que o mercado estava
impondo regras, mudando, se ajustando aos padrões da mídia, que impõe às
mulheres a necessidade de fazerem de tudo e mais um pouco em busca de corpos
perfeitos, independente de quanto isso lhe custe, não só financeiramente, mas
também em aspectos como saúde física e emocional.
Posso garantir que nunca perdi
nenhum trabalho por conta da minha compleição física. Mas é claro que eu sei
que há um nicho de mercado que faz severas exigências quanto à magreza das
bailarinas. A questão primordial é: eu não faço dança-entretenimento. Eu faço
arte. E o público que consome arte não é o mesmo que consome bailarinas como
mercadorias, que apenas está interessado em ter corpos bonitos em exposição
para acompanhar o jantar.
Muitas vezes me vi chateada, mas
muito mais preocupada com colegas de dança, que recebiam essa influência de
mercado e se preocupavam em demasia com isso, fazendo regimes torturantes e
muitas vezes desistindo da dança por esse motivo. Mas eu nunca pensei em
desistir... apenas trilhei o meu caminho de forma alternativa.
Acredito que há espaço para
todos. Quem quer ver moças bonitas, fumar narguile, tomar uma cerveja ao som de
uma música árabe, vai obviamente achar no mercado diversas opções para esse
tipo de entretenimento. E quem quiser ver arte, quem está disposto a enxergar
na dança a verdadeira expressão do bailarino e/ ou coreógrafo, também
encontrará tantas outras opções. Mas com toda certeza, quem busca arte não está
preocupado se o bailarino pesa 50 ou 80 quilos, se é loiro, negro ou japonês...
pq a arte extrapola os limites do corpo, do peso, da cor da pele, da etnia ou
qualquer outro pré-conceito que se estabeleça como parâmetro de “ideal de
mercado”.
6- Você
já tem duas filhas, se não me engano. Conte-nos como é conciliar maternidade,
profissão, shows... em que medida a maternidade transformou sua dança e
expressão, se houveram mudanças.
É uma loucura. Eu viajo
praticamente todos os finais de semana para dar cursos em outras cidades, além
de ter uma carga horária grande de cursos no meu próprio estúdio (www.beladanca.tk). E os
horários são sempre os piores... pelo menos comparado à rotina normal das
famílias. E além das aulas, ainda tem os shows.
Minha filha mais velha, de 11
anos, muitas vezes já falou que gostaria de ter uma famíilia normal, com uma
mãe que trabalha das 8 às 18 h. Mas, ao mesmo tempo, entende que isso não
é só minha profissão, e sim minha vida. Tanto que de alguns anos pra cá ela
desistiu de tentar ter uma mãe tradicional e resolveu me acompanhar. Agora
estuda dança indiana, dança cigana e jazz – e já começa a se preparar para
enfrentar também a vida artística.
Minha filha menor tem apenas 2
anos, mas acredito que vá conviver muito bem com isso. Dei aulas até um dia
antes dela nascer. E ela me acompanha em muitas coisas, sempre que possível.
Adora invadir a sala de aula e dançar também. Aliás, quando acorda, a primeira
coisa que pede é para ouvir música e dançar.
A maternidade muda a nossa percepção
de vida em geral. Então, não há como negar que minha dança passou por mudanças,
sim. E benéficas. Mas acredito que tudo em nossa vida acaba, de alguma forma,
se refletindo na dança.
Por exemplo: fui casada por 12
anos, me separei, e agora, estou em um novo relacionamento. Minha dança mudou
em cada uma dessas etapas. Minha dança mudou assim que eu descobri estar
grávida e mais ainda depois do nascimento da minha segunda filha. E minha dança
vai continuar mudando em cada nova etapa da minha vida, pois dança nada mais é
do que a nossa mais pura forma de expressão. É colocar tudo aquilo que
vivenciamos e sentimos para fora, traduzidos em movimento. Impossível não
percebermos que nossa dança se modifica a cada dia, por que a cada dia nossos
sentimentos mudam. É da natureza humana estar em constante mudança. Graças aos
deuses!!!!
7-
Conte-nos um pouco da Shaide fora dos palcos, do que gosta, o que lê, o que
ouve, como se distrai.
Shaide vive muito muito muito
dedicada à dança, mas sempre sobra um tempinho para a Irma (minha face
oculta!). Até por conta do trabalho, meus gostos musicais foram tomados pela
cultura indiana, oriental, world music em geral. Mas também ouço muita mpb,
rock das antigas, salsa, música clássica. Em matéria de música sou bem eclética.
Já ler é, pra mim, muito mais do que um
passatempo, já que por muitos anos atuei, paralelamente à dança, como revisora
e copydesk de algumas editoras de São Paulo. Com isso, lia muito e sempre. E
assuntos variados; o que, mais tarde, fez com que a leitura se tornasse um
vício. Entre meus autores prediletos estão Gabriel Garcia Márquez, Paul Auster,
Patrícia Highsmith, Ernest Hemmingway, Ruben Fonseca e muitos poetas (hábito de
adolescência que ficou até os dias de hoje), como Cecília Meirelles, Clarice
Lispector, Quintana, Drummond, Florbela Spanca, Neruda e tantos outros.
No mais, no pouco tempo que me resta
sem trabalhar, sou bem caseira. Não sou muito adepta de baladas. Prefiro passar
na locadora, alugar um monte de filmes, fazer pipoca e namorar muito!
8-
Para você o que é imprescindível em uma bailarina? Quais características
refletem qualidade e quais ‘queimam’ o filme de uma bailarina?
Personalidade. É a palavra que
resume TUDO numa bailarina. Nada pior do que ver que a bailarina não está ali
verdadeiramente se expressando, que não passa de uma cópia de outra bailarina
famosa. Isso, por sinal, não entra na minha cabeça. O que alguém acha que ganha
copiando outra pessoa? Provavelmente nada, já que se você pode ver a original,
pra que então irá ver a cópia?
Além do mais, imagino que seja muito
incômodo para alguém que se esforça tanto, estuda tanto para criar seu estilo
próprio e desenvolver seu trabalho, ver que seu trabalho é exaustivamente
copiado.
Uma bailarina sem personalidade é
aquela que não sabe realmente como lidar com sua arte, que ainda não entendeu
como fazer para expressar seus sentimentos por meio da dança. E talvez busque a
cópia como uma solução mais fácil e segura. E geralmente essas são aquelas
bailarinas que vemos, admiramos a técnica, mas não conseguimos enxergar a alma
na sua dança. As vezes ouço pessoas dizendo: vi fulana de tal
dançando...nossa, o quadril dela é perfeito, mas não sei, não me emocionou.
Então, fica aí uma combinação
perfeita pra mim: boa técnica, emoção e personalidade.
9-
Shaide, no seu workshop fiquei impressionada também com sua calma. Você tem
algo meio ‘zen’ que não consigo explicar, uma força interna e ao mesmo tempo
uma calma, que me marcaram. Fale um pouquinho sobre isso, como administra seu
lado espiritual, se acredita nisso, quais práticas ou lições poderiam
compartilhar conosco.
Minha vida espiritual sempre foi
uma salada... assim como o Tribal! Minha religião de origem, digamos assim, foi
o candomblé. Minha avó era mãe de santo e fui criada dentro dessa egrégora.
Portanto, é algo que sempre me dá uma certa segurança. É como se fosse
realmente o meu berço espiritual.
Mas na vida a gente acaba sendo
como gato, curioso, investigativo, querendo saber de tudo um pouco. E nesse
processo de fuçar aqui e ali conheci outras formas de espiritualidade. Tenho
muitas amigas wiccanas e isso me leva, claro, a conhecer um pouco do
assunto. Já freqüentei um templo hare krishna e grupos de estudo sobre
hinduísmo. Já vivenciei o catolicismo por conta do outro lado da minha
família...mas sinceramente, não sou uma pessoa que se fixa em uma determinada
religião e a segue cegamente.
Acredito então que sou pagã, já que
minha identificação com o panteão africano e indiano seja muito grande – e
também por não ter nenhuma afinidade com o cristianismo e derivados. Mas não me
julgo de uma só religião,. Gosto de passear por todas e me beneficiar do que
considero o melhor de cada uma.
Tenho uma ligação muito grande
com o mar, por conta da minha espiritualidade-raiz no candomblé, e acredito que
um banho de mar é melhor do que muita sessão de psicoterapia. E meu contato com
as religiões hindus me fez adquirir o hábito de meditar, cantar mantras... e
essa é a maneira de me acalmar, de botar a cabeça no lugar quando preciso tomar
decisões, resolver conflitos.
Espiritualidade é algo que está
em tudo realmente. Vai muito além, no meu entender, de ter um único dogma e
segui-lo de olhos fechados. O Universo tem milhões de possibilidades para nos
oferecer. Não é possível que apenas uma seja a correta, não é mesmo? Em nada
nessa vida há realmente o certo e o errado, o bom e o mau...
10- Muito obrigada
por conceder a entrevista e por ser tão generosa e simples. Muita luz e leve o
carinho da turminha aqui de Guararapes, que você conheceu um pouco no workshop
em Bauru-Sp. Utilize esse espaço para falar sobre o que quiser. Sucesso!
Eu
desejo sorte à todas que estão iniciando esse LONGO processo na dança. E mais
ainda àquelas que já fazem parte desse meio. Que dediquem seu tempo ao que é
realmente valido nessa jornada: aprender, estudar, conhecer, investigar,
transmitir conhecimento, trocar, ofertar e, principalmente, dançar com alma!