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1- Vamos começar pela pergunta que todo mundo faz, rs, como, quando e por que começou a praticar dança do ventre?
Já ouvi dizer que a dança nos escolhe e é verdade, mas em relação a essa arte fui pega de mansinho. Por incrível que pareça não foi às mil maravilhas meu primeiro contato com a dança do ventre. Eu era uma menina muito reclusa, fechada em meu mundo, estudava em colégio de freira e minha melhor amiga vizinha era de família árabe. Eu mantinha certo fascínio por aquela cultura diferente, que me instigava e eu achava essa minha amiga linda e com um trejeito que jamais me esqueceria...Mal poderia imaginar que anos mais tarde estaria realizando o ritual de cortejo árabe de seu próprio casamento e de sua irmã e primas também! Quando soube que abriu a modalidade dança do ventre em uma academia próxima de casa, no ano de 2000 senti uma vontade indescritível, pois no fundo buscava algo que me libertasse das amarras que sentia. No colégio de freira eu não podia nem falar que fazia, ou achariam que é pecado! No entanto eu sentia que precisava buscar um algo a mais em minha vida até então limitada. Porém, não fazia idéia de como essa dança seria a grande missão de minha vida. No início fazer a aula para mim era a quebra de um paradigma, então minha motivação só surgiu e foi aumentando com o tempo na medida que fui descobrindo nessa arte meu sentido de viver.
2- Você é bailarina padrão da Khan el Khalili o sonho dourado de quase toda bellydancer. Conte-nos como foi participar e ser aprovada e que dica pode dar para aquelas que pretendem prestar a banca.
Na época em que comecei a fazer aula de dança do ventre vendia nas bancas uma revista grande que vinha com cds de músicas árabes. Eu ia correndo pra casa, colocava o cd e dançava sozinha sem ninguém me ver. O nome dessa revista era Khan el Khalili. Folheava aquela revista colorida, cheia de bailarinas lindas, pareciam de outro mundo...Lembro-me de ver fotos do Jorge Sabongi, diretor e dono da casa de Chá e achava aquilo tudo coisa de filme. Jamais poderia imaginar que um dia estaria lá e seria dirigida por ele e na época a Lulu Sabongi aparecia em todas as revistas, como iria imaginar que seria minha professora por dois anos e obteria seu selo? Aquilo já era um sinal creio eu, mas não conseguia enxergar. Na verdade sequer pensava que isso tudo poderia ser possível, não sabia que existia uma pré-seleção e mesmo que soubesse preferia pensar que aquilo era algo impossível, distante,etéreo. Olhava as imagens, me imaginava lá, mas apenas como as adolescentes fazem quando assistem um filme ou ouvem uma música que mexe com sua imaginação. Comprei todas as edições. Muito engraçado que mais tarde tudo foi me levando pouco a pouco para esse sonho e tudo até que virou realidade! Agora imagina entrar na mesma casa e dançar nas mesmas salas que via na revista e achava ser coisa de outro mundo?
Por isso, participar do processo de pré-seleção foi mais que a conquista de um sonho, foi a superação de alguém que tinha muitos motivos para desistir e os transformou em motivos para seguir.
Em 2009 eu mandei os famosos vídeos da pré-seleção, porém infelizmente meu DVD foi com problemas! Lulu não conseguiu me avaliar, mas o Jorge por mais que tenha pegado meu DVD com problemas me chamou atenção para várias coisas. Precisei ouvir que minha expressão estava superficial, que eu precisava desbravar ainda um longo processo até me tornar a bailarina que ele mesmo percebeu que eu sonhava ser...
Chorei muito...rsrsrs Mas ao invés de enxergar como problema, enxerguei uma grande oportunidade. Foi ai que escolhi a dedo e felizmente a pessoa certa para me orientar um ano depois aos vídeos, e esse ser foi Najla Al Hafsa que também era da Casa. Em 2010 foi um ano muito árduo para mim, pois ela me convenceu que se eu queria realmente crescer e me dedicar ao vídeo precisava fazer tudo na minha, sem alardear a ninguém, pois nesse processo o ego e essência da bailarina é muito afetado, a gente realmente fica muito mais sensível, nossa dança fica à prova, temos de rever tudo, desde movimentos, até forma de se expressar, temos que abrir mão da “síndrome de Gabriela” , sair do comodismo de “Eu sou assim dançando, pra que mudar...” e mais que isso, Najla me fez perceber que não era pra mudar meu estilo, mas mudar o que eu negava estudar. Existe uma tendência da maior parte das bailarinas em negar algum estilo dentro da própria dança. No meu caso eu negava muito qualquer trecho ou música lenta. Tinha medo de encarar esse mundo que para mim era tão assustador...Evitava assim dançar, cortava os taksins das músicas e sempre encontrava uma desculpa como “ah o publico não gosta de lento, ele quer ver alegria”. E nisso eu continuava praticamente frenética ao dançar. Foi no processo de estudo para os vídeos com a ajuda de minha orientadora (acho imprescindível ter orientação de quem entende sobre o que é o Selo) que eu acordei e percebi que se quisesse crescer como bailarina teria que encarar meus desafios, meus pontos fracos e deixar os pontos fortes para depois quando conseguisse certo equilíbrio.
Foi então que aconteceu um processo inesperado para mim. A forma como foi apresentado o selo, o que ele era, o que o habib gosta de ver uma bailarina, os princípios dentro da casa (já que ela dançava lá), tinham tudo a ver com meus próprios valores e sonhos da bailarina que queria me tornar. Antes eu queria crescer como bailarina, depois vi que no fundo essa oportunidade me levou a um lugar que para mim é uma segunda casa. Muitos poucos sabem ou tem o privilégio de estar perto daquelas pessoas que trabalham na Casa de Chá. Fora a maravilhosa hospitalidade do habib, as meninas que trabalham na copa são fofas e amigas demais, todos sem exceção parecem ser de nossa família! Muita gente critica a Casa de Chá sem saber o que realmente ela é. Deixa-se levar por pessoas de má índole que inventam um monte de asneiras, tudo por orgulho ferido. Pessoas que desistiram no começo, às vezes por não terem passado nos vídeos e que por conta disso passam a vida inteira querendo atazanar a vida de quem está lá. Inconformadas, comparam uma bailarina com a outra, tentam achar defeito nas bailarinas a qualquer custo (como se uma bailarina fosse totalmente perfeita!), enfim, perdem seus preciosos tempos que poderiam estar estudando e dedicando a crescer para destruir ainda mais o próprio caminho que escolheu. Mais que dar dicas, gosto de dizer o que é bom ser evitado. Cada bailarina deveria olhar mais para si, para a própria dança e ver que muito do que critica em outra bailarina está em sua própria dança e não quer aceitar!
Eu precisei aceitar e desafiar. Resultado? Estou APAIXONADA pelo lento!!! Demorou mais de um ano, chorava no meio da sala de aula, tamanha era minha dificuldade. Meu ego saltava aos olhos...Mas a essência venceu. Descobri que eu não precisava me tornar lenta, mas descobrir o lento que já existia dentro de mim e estava adormecido. E então fui descobrindo uma nova bailarina...O sonho foi aumentando e a surpresa foi enorme quando vi meu nome na lista de pré-selecionadas não só da Khan como também do Selo da Lulu. Descortinou ali uma nova empreitada que eu precisaria encarar com mais fervor do que encarei anteriormente. Mas considero o momento pós-vídeo bem mais alentador, pois a certeza de que iria para a banca mais comentada de todo país ajudava na auto estima, a gente passa a sentir que tem mais força. É uma chance e tanto. Quero deixar claro, que não acho que ter o padrão significa ser melhor que outras bailarinas, muito menos que é a única forma de ser alguém na dança!!! Jamais poderia ser hipócrita com nosso meio. Porém, é um patamar imprescindível a qualquer bailarina que queira experimentar uma nova forma de gerir sua dança. Eu visto a camisa da Khan porque encontrei lá tudo que fazia e faz sentido para mim como bailarina. Por mais que eu estude em outro lugar, outra vertente, outro selo, lá é continuará sendo minha segunda casa.
Acho uma grandiosa ilusão quem tenta mandar vídeos só pra tentar ficar “famosa”. Cada uma precisa saber o que realmente está por trás desse “padrão” ao invés de ouvir balelas como: “Só fazendo o curso do Jorge pra passar”. Isso não tem cabimento. Eu fiz todos os módulos do Jorge (work, modulo 1, e 2) e vi um monte de menina que nem no vídeo passou...O que acontece é que fazendo o curso, a bailarina entenderá perfeitamente o que é o selo e se ele tem a ver consigo. A minha dica é: se não tiver a ver busque outro viés. Ou seja, tente entender, conversar com bailarinas que dançam lá sobre o que é o selo, o que ele pede de uma bailarina e veja se encaixa com sua forma de pensar. Existe um preconceito muito grande com a Casa que visa atender um ramo do mercado. O que se exige da bailarina lá, é visando atender um tipo de mercado. Assim como para ter um papel uma atriz precisa atender a critérios (até físicos), uma modelo precisa atender a padrões, lá uma bailarina precisa também atender ao tripé técnica, expressão e estética (corpo em equilíbrio). Isso jamais foi e deveria ser motivo para fazer alguém desistir de dançar, fazer aulas e se realizar com a dança. Da onde tiraram esse absurdo?
Existem vários outros lugares que podem ajudar e atender outros princípios. O importante é se sentir feliz e realizada com a própria dança. Mas a arte para o mercado exige certas condutas e critérios. Existe um lado cênico, critérios como pulsação emocional que nós não aprendemos nos vários anos que tivemos aulas na dança do ventre...Outro mito é de que pra entrar pra casa tem que ser idêntica uma a outra lá e que são todas iguais. Qualquer pessoa de bom senso sabe que isso seria praticamente impossível. Cópias existem sim, mas comparar a essência de cada uma lá dentro é o mesmo que afirmar algo sem embasamento.
Sinto muito orgulho e realização por fazer parte de lá, agradeço imensamente ao habib pela oportunidade. Toda vez que vou volto uma outra bailarina e professora. O habib é um diretor nato, é alguém que com sua sensibilidade sabe como perceber como cada bailarina reage ao instrumental das músicas. Se for mandar o vídeo não pense nos resultados, pense que receber a avaliação dele que já é uma grande oportunidade de crescimento. É um novo olhar sobre sua dança. Não alimente expectativas, apenas estude, estude, filme e mande. Receberá orientações imprescindíveis para seu aprimoramento. O que vier além disso é lucro.
3- Dentre as inúmeras profissionais da dança, cite as 5 preferidas e porque.
Sabe por que essa pergunta é difícil? Porque considero ideal que as bailarinas preferidas mudem com o tempo! São tantos estilos diferentes, tantas que surgem e trazem uma nova ótica de dança, que eu considero mágico passar uma fase tendo suas preferidas e depois surgirem outras.
No momento as que estão me inspirando profundamente são: Ju Marconato, Isis Zahara, Ariella, Crystal Kesbah e Aischa Dincer. Algumas são minhas orientadoras no momento. A Ju instiga meu lado espiritual e emocional na dança. O trabalho dos “4 elementos” que ela desenvolve simplesmente deu novo norte a minha dança. È um simbolismo que me fez acordar para vários aspectos meus que precisavam de atenção. Fora isso a Ju é um exemplo de vida. Ela mostra que o que devemos ser na dança devemos ser nos bastidores e na vida pessoal.
Isis Zahara é uma bailarina internacional que me chamou atenção por ter a coragem de realizar um solo de dabke feminino a contragosto de muitos que acham ser apenas masculina a dança (apesar claro de ter origem masculina). Adoro bailarinas que quebram paradigmas sabendo respeitar e manter a tradição com muito bom senso.
Ariella além de uma grande amiga minha é uma orientadora que vem me ajudando muito e inspirando a trabalhar o lado sensual na dança e principalmente a entrega, e criar meus próprios movimentos. Ela me ajuda muito a sair do senso comum, não ser obvia e com ela venho criando meu próprio estilo e tendo coragem de me assumir sem medo na dança.
Crystal surgiu de mansinho na minha vida. Uma bailarina linda, criativa que tem uma humildade tocante. Para mim bailarina que vira top e não olha nos olhos de seu publico não merece estar lá. Crystal é um exemplo de mulher-bailarina. Ela vai além, sempre estuda, se supera e dança diferente, se assume.
Aisha Dincer foi uma surpresa pra mim quando a vi dançando. Uma espontaneidade rara de bailairna. Dança se jogando, tem uma maestreia com os sobrepostos da musica que chega ser tocante. Adoro ver como ela deixa fluir o lado improviso sem rodeios e de sua superação como bailarina.
Como disse, em breve outras serão também minhas preferidas, pois como estou sempre mudando, novos estilos vão me chamando atenção.
4- Você mora no Rio de Janeiro. Fale um pouco sobre o mercado da dança oriental em sua cidade.
Pergunta polêmica! Rs Mas talvez me ache apta a respondê-la porque encaro o viver da dança como uma missão exatamente no Rio de Janeiro. Várias coisas já me entristeceram de ouvir a respeito do Rio. Algumas delas como “Quando falo do Rio não consigo lembrar de bailarinas...” No Rio não existe estudo...”Eu digo: existe sim. Permita-me romper com alguns estereótipos: No Rio de Janeiro existem bailarinas boas sim, maravilhosas e que querem sim crescer. O problema é que a maioria é mal orientada e não sabe por onde começar. Quando sai do Rio e participei do Mercado Persa, dancei em alguns lugares de SP, eu vi um mundo muito maior. Vi que muitas desistem daqui e vão morar lá, ou simplesmente acham que o Rio não tem jeito.
Sinceramente? Não acho que só viajando é que a gente vai ter crescimento. O segredo está na palavra PATRILHA. Tantas bailarinas que foram pra fora e cresceram, mas não compartilham, não querem passar para suas alunas o que aprenderam por ego, por medo de serem ultrapassadas e perderem o “pequeno” espaço que conseguiram criar aqui. Mas eu contra argumento: O que conseguirão com esse egoísmo? Nada. Considero esse o primeiro entrave em relação ao Rio ainda engatinhar na dança árabe. O segundo é em relação a panelinhas e apego visceral às alunas. Professoras colocando medo nas alunas a respeito de outras, usando antiética só para segurá-las. O mais triste é saber que o fazem por conta de dinheiro... Pior são bailarinas de fora que vendo a carência no Rio querem fazer “paternalismo” barato aqui, usando de antiética e hierarquia infundada pra obter lucro com número de alunas. Posso dizer, essas não funcionam, felizmente. Mas isso gera meninas cheias de ilusão que saem achando que já podem dar aula e receberem dinheiro em troca da dança. O terceiro é o isolamento das bailarinas em relação a outras e o bairrismo: “Só chamo fulana pra dançar no meu evento porque as outras não vão dar conta”. E que história é essa que uma bailarina não merecia estar dançando em tal evento? Cada uma no seu tempo, na sua experiência...
Paralelo a esses entraves, digamos que temos boas sementes, mas um terreno infértil. Infelizmente não há valorização no que tange o mercado árabe. ( pelos próprios árabes também). Os locais ainda são despreparados para receber uma bailarina e isso sobrecarrega as próprias que tentam levar o encanto que a dança árabe tem a oferecer. Não falo só de cachês injustos. Falo de falta de infra-estrutura, lugares que não oferecem espaço reservado para troca de roupas, espaços inadequados para realizar movimentos, lugares que qualquer um se pergunta como pode realizar um show de dança. E olha que mesmo não tendo essas condições, existe briga e competição por data de escala!
E minha resposta sobre isso não é hipócrita. Eu não acho que devamos desistir e sim lutar pela melhoria do mesmo, correr atrás, nos valorizar cada vez mais para que possam começar a valorizar também.
Precisamos dar oportunidades! Abrir espaço pra que outras possam crescer. O mercado de dança aqui é ultrajado por cabeças ignorantes, uma pressa indescritível por crescimento a custas dos outros e uma dose extra de ilusão que com cinco anos tudo vai melhorar. Isso vai levar muito mais tempo! E espero estar viva até lá para ver esse crescimento. Como falei, encaro como missão, como um norte, eu quero e desejo maior união e crescimento no mercado de dança oriental carioca. Desejo que as professoras e bailarinas daqui careçam e possam ser chamadas lá pra fora e que haja maior intercâmbio. Apesar dos problemas, eu encaro com muita esperança e positividade nosso espaço. Vejo cada uma como a chama de uma vela: Apesar de acender a vela da outra a própria chama não se apaga.
5- Seu noivo toca e também dança? Como é ter um parceiro que também pratica a dança oriental, existe a troca de conhecimento e estudos?
Depois de quase cinco anos juntos, ainda nos surpreendemos como conseguimos nos completar tão perfeitamente na dança como na vida a dois. Eu acredito muito que um atraiu o outro quando decidiu seguir de vez a dança. Temos o mesmo tempo de prática na dança oriental e apesar de termos temperamentos super diferentes, nos completamos muito como casal, na vida e no trabalho. Penso que ele viu em mim os próprios sonhos refletidos e eu nele a certeza que poderíamos seguir juntos nessa empreitada. Ele veio morar comigo no Rio, pois percebendo minha missão quis se juntar e lutar por essa causa. Dessa forma, existe sim uma troca infindável nossa de conhecimentos. Ele me ajudou e ajuda demais no estudo de ritmos e eu o estimulo muito a estudar, crescer e levar a cultura libanesa por onde for (o dabke é uma das maiores paixões da vida dele). Eu também me apaixonei pelo folclore libanês, por esse estilo de dança tocante, espontâneo, alegre e visceral. E foi através dele que consegui conhecer e me aprofundar nesse estilo. Ele também já era derbakista, e fiz questão de incentivá-lo a tocar para bailarinas no Rio e também dar aulas. Hoje contamos com um grupo de percussão maravilhoso que em breve será muito chamado. Tenho muito orgulho dele e sei que ele tem de mim. Crescemos juntos, talvez seja essa a fórmula do sucesso. Existe muita cumplicidade e diálogo. Isso tudo aparece e se reflete em nossa dança de casal.
Nesse sentido, a parceria se tornou inevitável. Casou nossos objetivos, valores e até temos a mesma filosofia de vida.
6- Eu acompanho suas postagens no Facebook, sempre textos de muita reflexão e discernimento. Fale sobre essa busca pelo equilíbrio e como observa o comportamento das bailarinas em se tratando de desenvolver o mental/espiritual a partir de suas experiências e convívio.
Primeiro quero agradecer pelo carinho. Tenho ouvido o mesmo de outras pessoas lá no Face e fico imensamente feliz e grata por ser bem recebida naquilo que reflito e coloco em pauta. Muito do que escrevo tem relação ao que também preciso refletir em mim! Isso as vezes casa com o que estão passando e compartilhar esses pensamentos é praticamente uma catarse.
Você usou o termo correto, é uma busca. Constantemente, estou em busca de aprimoramento não só de minha bailarina/professora/produtora, como de minha pessoa, do ser humano que sou. Por isso não tenho como deixar de citar a filosofia de vida que sigo: o budismo (Nitriren Daishonin). Foi através dela que aprendi que a mudança começa em nós mesmos, que devemos ser a mudança que queremos ver no mundo. Aprendi que não preciso ser melhor que ninguém, mas preciso ser A melhor que puder naquilo que fizer. E não importa o que eu fizer, mas se eu for a melhor que posso ser, então tudo ao meu redor se renovará e mudará na direção de meus sonhos e de minha missão. Isso casa demais com o que aprendi com o Jorge na Casa de chá. Ele sempre diz e acredito muito, que uma bailarina não pode estudar só dança se restringir aos movimentos, técnica e estética, mas que precisa estar antenada com o mundo, a atualidade. Adoro quando ele diz que bailarina que não lê não chega a lugar algum. O mental deve ser acoplado ao físico e precisamos ampliar nosso olhar sobre as circunstâncias. Olhar com mais carinho outras áreas, estudar outros assuntos e complementar assim o nosso.
Isso enriquece demais nossa trajetória e conseqüentemente nosso meio! Ele cita também o emocional, imprescindível para tocar o coração do público. Sem pulsação emocional, uma bailarina pode ter toda técnica do mundo que não consegue chegar até o coração das pessoas e criar encanto, objetivo central de uma artista dançarina. Isso tudo toma novo tom com o lado espiritual. Bailarina que não tem sistema de crenças, resiliência (ato de resistir às intempéries) e fé (crença que pode dar certo) parece faltar alguma coisa...O público quase sempre quer sublimar, sair um pouco de sua realidade muitas vezes “preta e branca”, por isso quando uma bailarina tem filosofia, desenvolve sua alma, seu centro de equilíbrio e espaço interno consegue transmutar seu público para uma esfera transcendental. É exatamente isso que a bailarina Ju Marconato consegue com tanta maestria. Não é só dança, dom... É alma! É nosso maior exemplo de ser de luz, aquela bailarina que se cuida tanto internamente que isso se reflete em seu corpo físico e aceitando as mudanças que a vida lhe colocou, toca nas almas de todos através dessa linda expressão que é a dança. É em tudo isso que me guio e me inspiro. Provavelmente são dessas experiências citadas que recebo inspiração para escrever como escrevo e ser tão bem aceita. É uma visão além do alcance.
7- O que pensa sobre o uso do ballet e demais modalidades na dança oriental?
Eu penso que fazem muito barulho por pouco...A dança é uma arte e como toda arte é uma expressão livre, de criação, absoração... É natural que uma dança se misture com a outra e mude com o tempo. Claro que bom senso e valorização da tradição precisam permanecer para não matar o que temos de relíquias e sabermos aonde nos basear para criar o novo.
Sobre o uso do ballet, não deveria parecer novidade! Não é usado só como adaptação na rotina clássica oriental, mas foi usado por Mahmoud Reda, naquilo que chamamos de “folclore”. O estudo do ballet melhora postura, eixo, segurança em cena e diversos outros fatores. Aquela que dançar apenas um ballet esquecendo a dança do ventre por exemplo cairá no esquecimento rapidamente não é? Pra que então tanta campanha contra a modalidade ballet, se o que está errado é a forma como uma ou outra administra essa adaptação?
As fusões são bem vindas, mas devemos tomar cuidado ao juntá-las...Por isso não vejo com maus olhos o uso de outras modalidades na dança árabe.
8- Conte-nos ao planos para este ano e deixe uma mensagem para as bailarinas... obrigada pela entrevista!
São tantos planos! Planos para esse ano que na verdade serão para longo prazo! Tenho planos de produzir eventos maiores, trazer mais bailarinas para trocar experiência com a gente. Esse ano já estão engatilhados dois super cursos: O módulo 1 do curso de Direção e Preparação artística com Jorge Sabongi e o curso de formação com Ju Marconato. Outras novidades estão por vir, com o tempo saberão! Mas quero deixar aqui meus sinceros e efusivos agradecimentos por querer saber sobre mim e meu trabalho e minhas considerações do meio.
Quero deixar uma mensagem filosófica as bailarinas que lerem essa entrevista:
Assumimos muitos papéis ao longo da vida e, a cada momento, preferimos atuar em determinados focos.
Porém, abandonar os temas que nos agradam menos é uma grande armadilha; precisamos buscar o equilíbrio no desempenho de cada um deles, afinal, todos fazem parte de nós…
Precisamos acordar para a importância de tudo o que vivemos! “A – cor – dar”, ou seja, dar a cor, colocar o coração em tudo que fazemos, encontrar uma parcela de prazer em tudo..
Cada dia, cada ação, cada momento é exclusivo… Ninguém ainda o viveu. Ele está ali, esperando que o acordemos, para dar a cor que quisermos para ele…
Viva intensamente cada momento! Valorize cada segundo! Ame cada “pedacinho” da sua vida… Afinal, tudo isso e cada parte disso, é VOCÊ!
Obrigada e até a próxima!
Entrevista realizada em: Janeiro de 2012
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